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A ilusão do progresso moral no billboard de virtudes

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Como a confusão entre avanço tecnológico e aperfeiçoamento moral transformou as redes sociais em um grande painel de virtudes vazias

“O progresso técnico é real e acumulativo, mas o progresso moral é um mito. A cada geração, a barbárie precisa apenas de uma nova tecnologia para se vestir com os trajes da modernidade.”John Gray

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, observe por um instante a sua rotina digital. Ao deslizar o polegar pelas telas luminosas dos smartphones, o que você enxerga não é apenas um fluxo de informações, mas um imenso e ruidoso billboard humano. Nas redes sociais, transformamo-nos em feirantes da nossa própria existência. Vendemos estilos de vida, opiniões refinadas, afetos performados e um cardápio inesgotável de supostas virtudes. No dorso desse cavalo selvagem do capitalismo, o marketing pessoal tornou-se a nossa principal ferramenta de sobrevivência e busca por influência. É o que temos para o momento.

E notamos uma grande narrativa que sustenta essa feira de vaidades digitais: a crença cega na “evolução” humana. Gostamos de repetir a nós mesmos a fábula Iluminista de que a civilização é uma marcha linear e triunfante em direção ao bem, à empatia universal e ao aperfeiçoamento ético.

Mas bastam alguns minutos de leitura honesta sobre o estado do mundo para que essa utopia desmorone. E é exatamente aí que a filosofia cética de pensadores como o britânico John Gray e o nosso Luiz Felipe Pondé atua como um antídoto necessário para a nossa arrogância contemporânea.

Imagem de rawpixel.com no Magnific

Não há como negar os marcos extraordinários do desenvolvimento científico, claro! Da descoberta do fogo à física quântica, da medicina moderna à inteligência artificial, o acúmulo técnico e cultural foi o pilar que permitiu acomodar — ainda que precariamente — mais de oito bilhões de almas no planeta. A técnica nos trouxe conforto, estendeu a nossa expectativa de vida e criou mecanismos institucionais para mitigar o conflito direto.

No entanto, o erro trágico da modernidade foi confundir progresso técnico com progresso moral.

O fenômeno de passar a acreditar na evolução moral, porém, não nasce com as redes sociais: esse sentimento de achar que estamos avançando é fruto da disseminação de ideologias políticas que, também ilusoriamente, imaginam que usando ferramentas científicas e pressupostos comportamentais podem levar à redenção do mundo.

Como adverte John Gray, o conhecimento científico é acumulativo: o que um físico descobre hoje serve de degrau para o físico de amanhã. A ética, contudo, não possui memória genética. Os ganhos morais e políticos de uma sociedade não são herdados biologicamente; são frágeis, provisórios e podem ser varridos do mapa em questão de meses por uma crise econômica, um colapso político ou uma guerra ideológica. A barbárie não ficou no passado; ela é perfeitamente compatível com a mais alta tecnologia.

A verdade incômoda, que a biologia e a história insistem em nos mostrar, é que não alteramos um único nucleotídeo do nosso DNA, pelo menos, nos últimos cinquenta mil anos. As nossas estruturas psicológicas profundas — o medo da exclusão, a busca por poder, o apego ao território, a necessidade de criar símbolos tribais para odiar o vizinho e a busca desesperada por afeto e sobrevivência — permanecem rigorosamente as mesmas dos nossos ancestrais das cavernas, ainda que eles não vivessem nelas, contrariando o mito.

A entrada principal do campo de extermínio alemão Auschwitz I, próximo à cidade de Oświęcim, na Polônia. Acima do portão encontra-se o infame lema *Arbeit macht frei* (“o trabalho liberta”).
Imagem por Bibi595, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

A tecnologia não nos tornou mais sábios, mais justos ou mais tolerantes. Ela apenas potencializou a velocidade e o alcance das nossas imperfeições.

Um smartphone no bolso não transforma um homem em um ser moralmente superior; apenas concede a um primata territorial a capacidade de disparar linchamentos virtuais, espalhar desinformação e odiar à distância de um clique. O mesmo algoritmo que conecta mentes em tempo real cria bolhas de intolerância e transforma a praça pública em uma arena de gladiadores sedentos por aprovação e likes.

A crença no “progresso moral” torna-se, assim, uma ideologia perigosa. Ela alimenta a ilusão de que podemos “consertar” a humanidade através de engenharia social, ativismo de vitrine ou novos aplicativos. Ignora-se que o animal humano é fundamentalmente imperfeito, movido por contradições e paixões incontroláveis. Ao fingirmos que somos anjos evoluídos em uma vitrine digital, tornamo-nos cegos para os monstros que continuam habitando o nosso subsolo psíquico. O século passado, entre tantas atrocidades, nos legou as maiores guerras que a humanidade já presenciou, mostrando amplamente de que evolução moral é uma falácia. E o tempo presente, sempre atualizado com a estupidez humana, demonstra essa ilusão ainda de forma mais contundente.

Recusar a fábula do progresso moral não significa abraçar o desespero ou o niilismo; significa adotar uma posição de prudência e maturidade.

Como o próprio Luiz Felipe Pondé gosta de nos lembrar com frequência, não há garantia alguma de que as nossas conquistas civilizatórias sejam definitivas ou irreversíveis. Se o sistema econômico ruir, se uma grande catástrofe geopolítica ou climática obliterar a nossa infraestrutura tecnológica e desligar a tomada da modernidade, a ilusão da nossa “evolução” desmoronará junto. Na ausência da fartura e do amparo institucional, a natureza humana mais crua se adaptará imediatamente ao novo cenário de escassez: voltaremos sem qualquer pudor a saquear, a guerrear por recursos básicos e a escravizar os mais fracos. A barbárie não é um estágio passado da história; é um estado de repouso para o qual a humanidade retorna assim que as vigas da civilização cedem.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Quando nos despirmos da ilusão de que a história caminha inevitavelmente para um final feliz, passamos a olhar para as nossas instituições — a democracia, os direitos humanos, o afeto genuíno e a convivência pacífica — não como direitos adquiridos para sempre, mas como plantas delicadas e frágeis que exigem cuidado diário, sobriedade e vigilância constante.

No fim das contas, por trás de todo o nosso marketing pessoal e das nossas virtudes ostentadas nas redes, continuamos sendo os mesmos seres frágeis e contraditórios de sempre.

Mas, de alguma forma, hoje temos que estar neste billboard à que me refiro. Temos que estar nele como método de sobrevivência, não tem jeito. Porém, caso sirva para alguma reflexão, preste atenção e tome cuidado ao tentar performar uma evolução moral ou espiritual fictícia para a plateia: você pode não “entregar” (palavra da moda) o que “demandam” (idem) — e, então, a sua sobrevivência correrá risco. Exemplo é o que não falta.

Ainda assim, resta a esperança de que você possa perceber, antes de chegar ao precipício, que há uma humildade trágica em reconhecer os limites da nossa própria natureza — e, com essa lucidez, tentar não fazer do mundo um lugar mais violento do que ele já é.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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