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O Brasil virou um laboratório global de IA

O Brasil deixou de observar a revolução da IA. Agora, faz parte dela.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

A chegada das gigantes da inteligência artificial ao país revela uma mudança maior: o Brasil deixou de ser apenas consumidor de tecnologia e passou a ocupar um lugar estratégico na próxima fase dessa transformação

Por Arnaldo Reis Figueiredo

Durante muito tempo, acostumei-me a enxergar as grandes revoluções tecnológicas seguindo praticamente o mesmo roteiro. Elas começavam nos Estados Unidos, ganhavam escala em outros mercados e, algum tempo depois, chegavam ao Brasil. Era quase uma sensação de que sempre estaríamos observando a inovação acontecer de fora antes de incorporá-la à nossa realidade.

Nos últimos meses, porém, comecei a perceber uma mudança curiosa. Notícias que, isoladamente, pareciam apenas movimentos corporativos começaram a formar um desenho maior. A expansão da infraestrutura de inteligência artificial na região, o aumento dos investimentos das grandes empresas de tecnologia e, agora, a decisão da OpenAI de estabelecer sua primeira operação na América Latina justamente no Brasil me fizeram pensar que talvez o roteiro tenha começado a mudar.

A primeira reação de muita gente foi enxergar apenas a abertura de um escritório. Eu fiquei com outra impressão. Quando uma empresa desse porte decide criar uma presença local, normalmente ela está respondendo a algo que já está acontecendo naquele mercado. Existe demanda, existem empresas preparadas para adotar novas soluções, existe um ambiente que passou a fazer sentido estrategicamente. A notícia deixa de ser o escritório. O sinal passa a ser o país.

Os sinais da mudança aparecem antes de ela mudar o mercado.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Quando o mercado muda antes da notícia

Essa percepção me lembrou outras transformações que acompanhei ao longo dos últimos anos. No início dos smartphones, quase todo mundo acreditava que a novidade era ter internet no bolso. Depois vieram os aplicativos de transporte, os bancos digitais, o comércio pelo celular e uma sequência de mudanças que ninguém conseguia enxergar completamente naquele primeiro momento. A tecnologia parecia ser a protagonista. Na prática, ela estava apenas abrindo espaço para uma mudança de comportamento muito maior.

Tenho a impressão de que a inteligência artificial atravessa uma fase parecida. Durante muito tempo, discutimos sua capacidade de criar textos, imagens ou automatizar tarefas. Agora, o debate parece ter mudado de lugar. A pergunta já não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer. Ela começa a ser outra: por que as maiores empresas do setor passaram a tratar alguns mercados como estratégicos para a próxima etapa dessa evolução?

O Brasil aparece nessa conversa por razões que vão além do entusiasmo com novas ferramentas. Somos um dos maiores mercados digitais do mundo, temos milhões de pessoas utilizando inteligência artificial diariamente e empresas pressionadas a encontrar formas mais rápidas de ganhar produtividade. Quando esses fatores se encontram, deixam de representar apenas consumo. Passam a representar influência.

O novo diferencial talvez não seja tecnologia

Existe um detalhe dessa história que considero ainda mais interessante. Durante décadas, vantagem competitiva significava ter acesso à melhor tecnologia. Hoje, praticamente qualquer empresa consegue contratar as mesmas plataformas de inteligência artificial. O diferencial começa a surgir em outro lugar.

Algumas organizações continuam usando essas ferramentas para acelerar tarefas específicas. Outras começam a repensar processos inteiros, formas de decidir e maneiras diferentes de organizar o trabalho. A tecnologia permanece importante, mas já não explica sozinha quem avança primeiro.

Talvez seja justamente esse o ponto mais relevante da chegada da OpenAI ao Brasil. Ela não representa apenas um investimento em infraestrutura ou expansão comercial. Ela reforça a impressão de que o tempo entre o surgimento de uma inovação e seu impacto nos negócios está ficando cada vez menor.

Quando olharmos para trás, é possível que não nos lembremos exatamente da inauguração desse escritório. Talvez nos recordemos de algo mais importante: do momento em que o Brasil deixou de parecer apenas um destino para tecnologias prontas e passou a fazer parte do lugar onde elas começam a ser adaptadas, testadas e incorporadas ao mercado da região.

Porque talvez a maior mudança provocada pela inteligência artificial não esteja apenas na evolução das máquinas. Ela estará na velocidade com que empresas, profissionais e mercados perceberão que o mapa da competição já começou a mudar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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