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Psicóloga Comportamental e Cognitiva, Neuropsicóloga, Psicopedagoga

Além do barulho: o que o grito na sala de aula revela sobre o desenvolvimento infantil

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Quando uma criança grita, ela está sinalizando que seus recursos internos falharam em lidar com alguma demanda

A cena familiar para muitos educadores: em meio ao silêncio de uma explicação ou durante uma atividade em grupo, um aluno solta um grito estridente. A reação imediata do entorno costuma ser o desgaste e a interpretação de que o ato é apenas uma pirraça voluntária para “chamar atenção”.

No entanto, sob a visão da psicologia infantil e da neuropsicologia, o comportamento indisciplinado, é na verdade, uma forma rudimentar de comunicação. Quando uma criança grita, ela está sinalizando que seus recursos internos falharam em lidar com alguma demanda, seja ela emocional, social ou sensorial.

A função do comportamento de busca de atenção

Na psicologia do desenvolvimento infantil, entendemos que todo comportamento repetitivo serve a uma função. A “busca de atenção” Que é uma necessidade legítima de conexão, validação ou socorro. Se a criança aprendeu que o grito é a forma mais rápida de fazer o ambiente orbitar ao seu redor, ela repetirá o ciclo.

O manejo clínico e pedagógico ideal não visa silenciar a criança pelo medo ou pela punição, mas sim ensiná-la a substituir o grito por uma conduta funcional (como levantar a mão ou usar fichas de comunicação). Contudo, quando essa busca por autorregulação se mostra desproporcional ou resistente as intervenções tradicionais, o olhar psicopedagógico precisa ir mais fundo.

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Altas habilidades / superdotação (AH/SD) e a hipersensibilidade

Uma hipótese frequentemente negligenciada no ambiente escolar é relação entre comportamentos disruptivos e as Altas Habilidades / Superdotação (AH/SD)

Existe um mito de que o aluno superdotado sempre é aquele bem-comportado e focado. Na realidade, individuos com AH/SD frequentemente apresentam o que o psicólogo Kazimierz Dabrowski chamou de “sobreexcitabilidade”.

A sobreexcitabilidade emocional e intelectual pode fazer com que a criança experimente o mundo com uma intensidade avassaladora. O grito pode surgir em decorrência de:

  • Tédio extremo: o ritmo da aula pode estar drasticamente aquém da velocidade de processamento do aluno, gerando uma frustração insuportável que explode em impulsividade.
  • Assincronia do desenvolvimento: a capacidade intelectual da criança é muito avançada, mas seu controle emocional e maturidade social ainda correspondem a idade cronológica, gerando um descompasso em como ela expressa sua insatisfação.

Outra linha de investigação crucial é o Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que frequentemente caminha de forma isolada ou comorbida ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Para uma criança com disfunção sensorial, a sala de aula pode ser um ambiente hostil e doloroso.

Luzes fluorescentes que piscam imperceptivelmente, o arrastar de cadeiras, o eco das vozes ou o toque da etiqueta da roupa podem sobrecarregar o sistema nervoso do aluno. Nesse caso, o grito não é para “irritar”, mas sim uma resposta de luta ou fuga frente a uma sobrecarga sensorial (meltdown), ou uma busca por estimulação proprioceptiva/auditiva para tentar organizar o próprio corpo no espaço.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Estratégias de ação imediata (durante o grito)

  • Extinção (ignorar planejado): não olhe, não repreenda e não mude sua expressão facial se o grito não gerar risco físico.
  • Atenção reversa: elogie imediatamente um aluno próximo que esteja trabalhando em silêncio.
  • Comando não-verbal: aproxime-se fisicamente da carteira da criança silenciosamente, apenas marcando presença, sem interromper a aula.

Estratégias preventivas e estruturais

  • Combinados visuais: cole na mesa do aluno fichas com símbolos (ex: uma mão levantada para falar, uma boca fechada para silêncio).
  • Antecipação de atenção: dê atenção ao aluno antes que ele grite. Peça ajuda dele para apagar o quadro ou distribuir materiais.
  • Sinal secreto: combine um gesto discreto com o aluno (como tocar no seu próprio ombro) para ele sinalizar quando precisar muito falar.
  • Cantinho da autorregulação: crie um espaço na sala com almofadas ou livros onde a criança possa ir voluntariamente se sentir frustrada ou ansiosa.
  • Parceria com a família e coordenação
  • Registro de episódios: anote os horários e o que estava acontecendo antes e depois do grito para identificar o gatilho exato.
  • Reunião acolhedora: converse com os responsáveis para entender se o comportamento se repete em casa e alinhar as mesmas respostas.
  • Investigação detalhada: se o comportamento persistir mesmo após o alinhamento de combinados visuais e da retirada do reforço positivo é indispensável o encaminhamento para uma avaliação neuropsicológica e também com terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial. Discernir se o grito é falta de repertório social, um reflexo de AH/SD ou um clamor de dor sensorial é o primeiro passo para garantir que a escola seja, de fato, um espaço de desenvolvimento e inclusão.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Mineira de Poços de Caldas, Cynthia Wood Passianottoé formada pela Universidade São Marcos, com especialização em Neuropsicologia e em diversas outras áreas q7ue focam na formação infantil e adolescente. Mãe de 2 filhos, casada com o também psicólogo Luciano Passianotto, Fundou e dirige o espaço Crescendo e Acontecendo no Morumbi, no qual se dedica no trabalho educacional e de orientação à educação de crianças e adolescentes há mais de 20 anos.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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