Querido leitor, querida leitora, hoje vamos viajar para um lado pouco discutido da violência doméstica: a rede de apoio da vítima, que pode, porventura, levá-la à justiça ou ao inferno na Terra.
Sim, preciso dramatizar mesmo para chamar a tua atenção.
Vezes sem conta, vemos nos jornais, na televisão e nas redes sociais pedidos de socorro da comunidade feminina, refletidos em mortes, desaparecimentos, vergonha e tantos outros casos. E, muitas vezes, apontamos a vítima como sendo a principal responsável e a única capaz de fazer alguma mudança.
Mas a pergunta que não quer calar é: será que uma pessoa, depois de levar uma boa mpama*, tem capacidades reais e cognitivas para assumir, seguir em frente e garantir que o agressor seja responsabilizado?
Mpama (também grafada como Pama) é uma língua bantu falada na República Democrática do Congo. Ela pertence à grande família linguística Níger-Congo e é falada especificamente pelo povo Mpama, uma população ribeirinha que vive ao longo do rio Congo. Entre seus significados, pode ser bofetada ou tapa.
Algumas destas vítimas sofreram uma verdadeira lavagem psicológica — a tal violência psicológica — durante tanto tempo que o pequeno desejo de simplesmente partilhar com alguém a sua dor as deixa tão aterrorizadas que acabam por escolher reduzir-se a pó e nem sequer conseguem mover-se em direção a qualquer entidade.

É exatamente neste momento que o apoio da família deveria fazer-se sentir.
Deveria ser a família a procurar a vítima, acompanhá-la às autoridades e, com muita garra e amabilidade, ajudá-la a encontrar, no mínimo, justiça.
Mas muitas vezes, principalmente em África, a família olha, apoia a limpar as lágrimas, dá um abraço…, mas raras são as vezes em que, com a mesma força, corre e leva a vítima às autoridades.
Muitas são as vezes em que as vítimas, em silêncio verbal, mas aos gritos através de um olhar, de gestos ou de hematomas, pedem socorro.
E a resposta é:”Volta para casa. Do lar não se volta.”
E assim vemos crescer um lar tóxico, com crianças tristes, onde uma mãe partir um dente, uma perna, ficar com um olho roxo… passa a ser tratado como se fosse o bom-dia de um dia ensolarado.
São as famílias que se sentam entre elas, numa reunião para “resolver o caso”, e no fim o que se ouve é: “Foi uma briga de amantes. Ele não quis magoar a menina. Não vai voltar a acontecer. Perdoem o nosso filho.”
E, como uma boa mãe ou família de matriz africana, o que se ouve é: “Ah, vou falar com o menino. Mano, tenta controlar-te.”
E pronto, está assinada a propagação da violência doméstica.
Mais dia, menos dia, descobrimos que a mana perdeu a vida.
Perdeu o bebé depois de um soco no ventre.
Perdeu um dente depois de uma fuga para a cozinha.
Não conseguiu comparecer ao trabalho por causa da indisposição marcada no olho roxo.

As suas extensões viraram mope (em Moçambique, usamos a palavra “mope” (ou mop, derivada diretamente do inglês) é muito utilizada no dia a dia para designar o esfregão (aquele utensílio de limpeza com tiras de pano ou fios grossos de algodão usado para passar pano no chão).
E a sua proteção passou a ser um tablet usado como escudo para se esquivar de murros e pontapés.
E esta realidade, menos falada, mas vivida diariamente por tantas mulheres, continua a ser normalizada com frases como:
“Deixa estar.”
“Foi um acidente.”
“Não vai voltar a acontecer.”
E assim andamos.
Com casas doentes.
Com famílias doentes.
Com crianças a aprenderem que violência também pode ser chamada de amor.
Até quando?
Até quando nós, familiares e amigos, vamos continuar a acobertar um covarde que usa o seu amor doentio para acariciar agressivamente a sua parceira?
Até quando vamos esperar que a próxima porrada seja a última?
Porque, às vezes, a vítima não precisa apenas que lhe limpem as lágrimas.
Precisa que alguém tenha coragem de pegar na sua mão… e caminhar com ela para fora daquele inferno.




























