Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora!
Você que percorre as ruas congestionadas das metrópoles, especialmente as de São Paulo, mais particularmente aqui do Morumbi, creio que muitas vezes deve buscar um refúgio do caos metropolitano, um resquício daquela promessa de harmonia que o final do século XX nos vendeu com tanto brilho, não é? Se estou enganado, me desculpo.
Mas desconfio que muitos de nós deve ter esse desejo no fundo de nosso inconsciente, mas latente, apenas não detectado face à correria que os tempos atuais nos faz viver.
Mas, se me permite, faço aqui um convite à reflexão.
Até a virada do milênio, o século passado parecia nos prometer um horizonte que parecia limpo: a tecnologia nos libertaria, as fronteiras cairiam e a democracia liberal era o destino inevitável.

Mas o “espírito do tempo” mudou de direção. Quase três décadas depois, o otimismo deu lugar a um enrijecimento dos afetos e das ideias.
Do trauma coletivo de 2001 à ascensão de líderes que subverteram o manual da diplomacia ocidental, como Donald Trump, vimos o mundo trocar o diálogo pela polarização e a liberdade da descoberta pela curadoria algorítmica de um smartphone.
Vivemos, talvez, o outono das utopias: um tempo onde a doçura da vida exige, antes de tudo, a coragem de enxergar as rachaduras no cristal do nosso tempo.
Hoje parece que vemos o fim do “farol” e uma certa ascensão do medo. Se nos anos 90 olhávamos para Washington como o bastião de uma ordem previsível, a consolidação da direita radical e a fragmentação do debate público não foram apenas eventos políticos; foram sintomas de uma exaustão cultural.
O Ocidente parece ter cansado da complexidade. Onde antes esperávamos pontes, hoje celebramos muros — literais e ideológicos. O 11 de setembro não apenas derrubou torres; ele derrubou a confiança no “outro”, inaugurando uma era de vigilância e suspeição que hoje permeia até nossas conversas mais triviais, onde o medo de ser cancelado ou incompreendido muitas vezes supera o prazer de debater.

A vida pautada em algoritmos evoca uma conveniência que escraviza. O otimismo tecnológico do século passado previa que o conhecimento seria onipresente e libertador. O que recebemos, contudo, foi a ditadura da conveniência.
Hoje, nossa existência é mediada por dispositivos que não apenas nos servem, mas nos regulam. O aplicativo que decide o caminho, o algoritmo que escolhe a música e a rede social que dita o que é aceitável dizer ou sentir.
O “politicamente correto” e as pautas identitárias, embora nascidos de demandas legítimas por justiça, muitas vezes acabam capturados por essa lógica de tribunal digital, onde o matiz desaparece em favor de um maniqueísmo estéril.
No contexto do tempo em que vivemos, precisamos nos perguntar: há algum luxo de lucidez que pode apresentar um resto na doçura da vida quando estamos em estado de alerta permanente? Desconfio que a verdadeira sofisticação deste início de século não está no consumo ostensivo ou na adesão cega a uma ideologia, mas na resistência intelectual.

Viver um verdadeiro “espírito do tempo”, em minha humilde opinião, hoje, é ter o privilégio — e a coragem — de desconectar-se do ruído para reconectar-se com o humano.
É entender que, embora o outono das utopias tenha trazido um clima mais frio e pessimista, a lucidez ainda é o melhor abrigo. Em um mundo que tenta nos transformar em dados ou em soldados de uma guerra cultural, manter a capacidade de apreciar o belo, o contraditório e o diálogo é o maior ato de rebeldia que podemos exercer.
E para você, caro leitor e querida leitora, em que momento o otimismo do século passado deu lugar à sua visão atual do mundo? Ainda é possível encontrar doçura em meio ao ruído digital e a histeria ideológica?
A doçura, agora, exige sobriedade.




























