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A anatomia dos sentimentos em “Quando o Estômago Grita”

Design Dolce sob imagem por autor-img em Canva

Através de uma escrita sensível, a juíza Eliete Fátima Guarnieri revela em sua estreia literária as múltiplas faces do desejo e da existência humana

O livro de contos “Quando o Estômago Grita” marca a estreia da escritora e juíza de Direito Eliete Fátima Guarnieri na literatura. A obra é também a primeira da “Trilogia dos Quandos”, que se completa com os títulos “Quando a Alma Viaja” e “Quando o Coração Sangra”, este último recém-lançado. Assim como os outros volumes, este primeiro livro é composto por 13 contos, número que tradicionalmente simboliza o azar. Não para a autora. Ao materializar o seu florescimento como escritora, o número 13 passa automaticamente a ser sinal de bom agouro.

Os contos, relata Eliete ao final da obra, foram escritos ao longo de trinta anos, mais especificamente entre 1992 e 2022. “Três décadas em que a literatura chegou a adormecer por longo período em meu âmago, mas não feneceu”, afirma. Abarcando épocas distintas, desde a adolescência até a maturidade, é natural que os textos expressem experiências de vida e anseios bem distintos. Não obstante, um ponto sempre permanece e marca o liame entre as 13 narrativas: o gritar do estômago, “de fome, de medo, de ânsia, de inveja, de dor, de desejo, de alegria, de paixão, de prazer, de exaustão, de angústia e de saudade”.

O primeiro conto, intitulado “Cacofagia”, retrata um morador de rua numa experiência limite. Famélico, parece não se importar em descer até o último nível da degradação humana para aplacar as súplicas de seu estômago. Em “Sapatinhos verdes”, ficamos às voltas com os enjoos e os vômitos de uma gestante. Trata-se de um conto tristíssimo, com um final de cortar o coração ou de “embrulhar” o estômago. “Roca Negra” narra a viagem de uma família pelo interior do Chile, em busca de um hotel envolto numa aura de mistério. Suspense de tirar o fôlego e de deixar aterrorizado estômagos mais fracos.

Design Dolce sob imagem por autor-img em Canva

“Philomena”, o quarto conto do livro, tem como protagonista uma mulher quase centenária, que cansou de viver. Ela para de comer e de ingerir líquidos. Aos poucos, seu corpo padece. Seu estômago grita de ânsia. Um livro que contém textos escritos em um período de 30 anos e que vai até praticamente os dias atuais não poderia deixar de tratar de uma das maiores calamidades sanitárias da história: a pandemia de covid-19. Dois contos abordam o tema: “Na pandemia” e “Quando o estômago grita”. O primeiro se concentra em um perfil de pessoas que grassou durante a pandemia: egoístas, que sempre dão um “jeitinho” de tirar vantagem. O segundo descreve a rotina angustiante de uma mulher assombrada pelo Sars-Cov-2 e suas variantes.

Em “Amor paterno”, sétimo conto do livro, o tema central é o desejo. Sua falta e seu surgimento de uma forma doentia. “Bolo mármore” retrata uma história singela e cheia de lirismo: avó e neta criam laços inquebrantáveis enquanto preparam alimento para alegrar o estômago. O “Acaso do ocaso” é uma narrativa irônica e trágica. Contrariando todas as estatísticas, um casal se apaixona para ver sua possível linda história de amor desaparecer da maneira mais estúpida possível, mostrando que, como diz Shakespeare, “a vida nada significa”.

O décimo conto do livro, “Noturno”, segue um morcego à procura de sua próxima vítima. Curto e impactante, a trama desce ao submundo para descrever o “modus operandi” de um predador, cujo estômago grita de prazer, após sorver o sangue de suas vítimas. Em “Dona Iraci” acompanhamos a trajetória de uma mãe de família cega pelo fervor religioso. Mais uma vez, nos encontramos diante de uma narrativa niilista, que evidencia a falta de sentido da vida. A ironia e a tragédia novamente andam lado a lado em “Desencontros”, uma história de amor e perda na velhice.

“O Chileno”, o último conto do livro, é uma ode ao amor não correspondido e uma declaração de admiração da autora a Machado de Assis, seu autor predileto. O livro é encerrado a contento, mostrando as grandes valências de Eliete: seu tom irônico, lirismo e amor incondicional à vida, com tudo que ela carrega consigo: alegrias e dissabores.

“Quando o Estômago Grita”

Autora: Eliete Fátima Guarnieri
Editora:
Editora Patuá
Número de páginas: 80 páginas
ISBN-10: 6558644576
ISBN-13: 978-6558644576

Natural de Piracicaba, município do interior de São Paulo, Eliete de Fátima Guarnieri é graduada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Juíza há 25 anos, ocupa, desde 2007, o cargo de juíza titular da 3ª Vara Cível da Comarca de Santa Bárbara d’Oeste. Seu primeiro livro de contos, “Quando o Estômago Grita”, foi publicado, pela Editora Patuá, em 2023, e seu segundo livro, “Quando a Alma Viaja”, foi publicado pela Editora Life, em 2024. No mesmo ano, lançou o livro de poesias “Minuetos em Versos”. Em julho de 2025, lançou o livro de contos “Quando o Coração Sangra”, pela Editora Casa de Astérion. Desde agosto de 2024, integra a Academia Piracicabana de Letras (APL).

Instagram: @elietedefatimaguarnieri | Facebook: Eliana de Fátima Guarnieri | Linkedin: Eliana de Fátima Guarnieri

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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