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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

O sangue da minha desconexão

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Será que o fato de entre irmãos existir uma ligação consanguínea faz nascer, naturalmente, um vínculo sentimental?

Querido leitor, querida leitora, hoje vamos viajar por mais uma das obrigações consanguíneas: a relação entre irmãos.

Todos, ou pelo menos a maioria de nós, nascemos e fomos criados a acreditar, aceitar e assumir o compromisso de respeitar e conviver com os nossos irmãos, pois o sangue é mais forte do que qualquer outro tipo de vínculo existente na Terra. E, ao contrariarmos isso, seríamos imediatamente considerados ovelhas negras e rebeldes.

Mas a pergunta que me pesa é, primeiro: será que o fato de entre irmãos existir uma ligação consanguínea faz nascer, naturalmente, um vínculo sentimental?

Será que, simplesmente por ser meu irmão, sou obrigada a amá-lo, independentemente de tudo?

Obviamente que, ao dizer o contrário, serás visto como um anormal.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Mas a verdade é que, se até mesmo um amor de mãe e filho pode ser questionado, o amor entre irmãos também deveria poder.

Porque, por mais irmãos que sejamos, por diversas razões, essa conexão pode simplesmente não existir.

E não falo aqui de diferenças entre os dois, de um pensar B e o outro pensar C. Não.

Falo de pessoas que simplesmente não conseguem conectar-se por algum motivo.

Seja porque um dos irmãos não é uma pessoa positiva, seja por diferenças profundas de valores, de personalidade, de escolhas ou até pela forma como cada um decidiu viver a própria vida.

Mas podemos colocar a mão na consciência e admitir a possibilidade de que, mesmo existindo um vínculo aparentemente indestrutível, ainda assim não seja possível encontrar uma conexão?

Podemos aceitar que isso aconteça e, ainda assim, que essas pessoas se respeitem e permaneçam firmes?

Porque o fato de não existir conexão não significa, literalmente, falta de respeito ou impossibilidade de conviver.

Significa simplesmente que ela não existe.

Por mais duro que seja, por mais impossível que pareça é possível não existir conexão entre dois irmãos. E isso não faz deles inimigos.

Faz deles pessoas que talvez precisem de aprender com a vida e, se assim desejarem, decidir construir ou procurar essa conexão.

A minha reflexão de hoje assenta nesta narrativa ilusória da sociedade, que quase nos obriga a viver determinadas relações apenas por causa do vínculo sanguíneo.

Talvez esteja na hora de plantarmos uma nova narrativa.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Uma em que, apesar de serem irmãos, meios-irmãos ou simplesmente pessoas que partilham uma história familiar, ensinemos aos nossos filhos que as relações também precisam de ser construídas.

Que o respeito pode ser ensinado, mas a conexão precisa de ser construída. Que o amor não deve ser imposto.

E que ninguém deve ser obrigado a sentir aquilo que o coração não consegue sentir apenas porque partilha o mesmo sangue.

Vamos ensinar os nossos filhos, desde pequenos, a compreender que o amor e o respeito nascem também da forma como tratamos o outro.

Quem sabe, no futuro, teremos pessoas menos egoístas, mais conscientes e com maior capacidade de procurar o amor de forma correta, sem exigir do outro aquilo que ele não consegue oferecer.

Porque amor e sentimento são escolha e privilégio.

E nunca deveriam ser usados como algo forçado ou obrigatório.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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