A cena familiar para muitos educadores: em meio ao silêncio de uma explicação ou durante uma atividade em grupo, um aluno solta um grito estridente. A reação imediata do entorno costuma ser o desgaste e a interpretação de que o ato é apenas uma pirraça voluntária para “chamar atenção”.
No entanto, sob a visão da psicologia infantil e da neuropsicologia, o comportamento indisciplinado, é na verdade, uma forma rudimentar de comunicação. Quando uma criança grita, ela está sinalizando que seus recursos internos falharam em lidar com alguma demanda, seja ela emocional, social ou sensorial.
A função do comportamento de busca de atenção
Na psicologia do desenvolvimento infantil, entendemos que todo comportamento repetitivo serve a uma função. A “busca de atenção” Que é uma necessidade legítima de conexão, validação ou socorro. Se a criança aprendeu que o grito é a forma mais rápida de fazer o ambiente orbitar ao seu redor, ela repetirá o ciclo.
O manejo clínico e pedagógico ideal não visa silenciar a criança pelo medo ou pela punição, mas sim ensiná-la a substituir o grito por uma conduta funcional (como levantar a mão ou usar fichas de comunicação). Contudo, quando essa busca por autorregulação se mostra desproporcional ou resistente as intervenções tradicionais, o olhar psicopedagógico precisa ir mais fundo.

Altas habilidades / superdotação (AH/SD) e a hipersensibilidade
Uma hipótese frequentemente negligenciada no ambiente escolar é relação entre comportamentos disruptivos e as Altas Habilidades / Superdotação (AH/SD)
Existe um mito de que o aluno superdotado sempre é aquele bem-comportado e focado. Na realidade, individuos com AH/SD frequentemente apresentam o que o psicólogo Kazimierz Dabrowski chamou de “sobreexcitabilidade”.
A sobreexcitabilidade emocional e intelectual pode fazer com que a criança experimente o mundo com uma intensidade avassaladora. O grito pode surgir em decorrência de:
- Tédio extremo: o ritmo da aula pode estar drasticamente aquém da velocidade de processamento do aluno, gerando uma frustração insuportável que explode em impulsividade.
- Assincronia do desenvolvimento: a capacidade intelectual da criança é muito avançada, mas seu controle emocional e maturidade social ainda correspondem a idade cronológica, gerando um descompasso em como ela expressa sua insatisfação.
Outra linha de investigação crucial é o Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que frequentemente caminha de forma isolada ou comorbida ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Para uma criança com disfunção sensorial, a sala de aula pode ser um ambiente hostil e doloroso.
Luzes fluorescentes que piscam imperceptivelmente, o arrastar de cadeiras, o eco das vozes ou o toque da etiqueta da roupa podem sobrecarregar o sistema nervoso do aluno. Nesse caso, o grito não é para “irritar”, mas sim uma resposta de luta ou fuga frente a uma sobrecarga sensorial (meltdown), ou uma busca por estimulação proprioceptiva/auditiva para tentar organizar o próprio corpo no espaço.

Estratégias de ação imediata (durante o grito)
- Extinção (ignorar planejado): não olhe, não repreenda e não mude sua expressão facial se o grito não gerar risco físico.
- Atenção reversa: elogie imediatamente um aluno próximo que esteja trabalhando em silêncio.
- Comando não-verbal: aproxime-se fisicamente da carteira da criança silenciosamente, apenas marcando presença, sem interromper a aula.
Estratégias preventivas e estruturais
- Combinados visuais: cole na mesa do aluno fichas com símbolos (ex: uma mão levantada para falar, uma boca fechada para silêncio).
- Antecipação de atenção: dê atenção ao aluno antes que ele grite. Peça ajuda dele para apagar o quadro ou distribuir materiais.
- Sinal secreto: combine um gesto discreto com o aluno (como tocar no seu próprio ombro) para ele sinalizar quando precisar muito falar.
- Cantinho da autorregulação: crie um espaço na sala com almofadas ou livros onde a criança possa ir voluntariamente se sentir frustrada ou ansiosa.
- Parceria com a família e coordenação
- Registro de episódios: anote os horários e o que estava acontecendo antes e depois do grito para identificar o gatilho exato.
- Reunião acolhedora: converse com os responsáveis para entender se o comportamento se repete em casa e alinhar as mesmas respostas.
- Investigação detalhada: se o comportamento persistir mesmo após o alinhamento de combinados visuais e da retirada do reforço positivo é indispensável o encaminhamento para uma avaliação neuropsicológica e também com terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial. Discernir se o grito é falta de repertório social, um reflexo de AH/SD ou um clamor de dor sensorial é o primeiro passo para garantir que a escola seja, de fato, um espaço de desenvolvimento e inclusão.





























