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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

O botox da Monalisa

Ilustração em guache sobre papel Canson preto por Ana Helena Reis

Nem todo sorriso é confiável

O sorriso é universal. Nascemos sabendo fazê-lo e, dizem, reconhecê-lo. Uma espécie de língua materna que dispensa palavras, tradutores e legendas.

Mas nem todo sorriso é confiável.

Há os que acolhem, os que seduzem, os que disfarçam. Há os que chegam antes da pessoa e os que ficam depois que ela vai embora. Um sorriso pode ser convite, despedida, deboche ou ameaça. Às vezes, basta um canto da boca para estragar o dia de alguém.

E há aquele sorriso que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. O da Monalisa, por exemplo. Há séculos, especialistas tentam decifrá-lo. Talvez ela esteja feliz. Talvez saiba de alguma coisa que nós não sabemos. Ou talvez tenha acabado de descobrir que não precisa mais franzir a testa.

A ciência, sempre interessada em meter o nariz onde não é chamada, descobriu que sorrir faz bem. Mesmo quando a vontade é de mandar alguém para aquele lugar.

Experimente. Diante de uma cara atravessada, devolva um sorriso. Não precisa ser sincero. O cérebro, esse sujeito crédulo, pode acreditar na encenação e nos devolver um pouco de alegria. Serotonina, dopamina, essas coisas que fazem a vida parecer menos áspera.

Um sorriso pode, portanto, mudar o humor. O nosso e, quem sabe, o de quem está do outro lado.

Mas há um detalhe.

Para sorrir, precisamos de músculos. E alguns deles andam sendo convidados a tirar férias prolongadas.

O botox chegou para suavizar as rugas, apagar os sinais do tempo e, de quebra, congelar algumas expressões. A testa fica lisa, os olhos descansam, os cantos da boca obedecem. Tudo no devido lugar.

Menos os sentimentos, que não receberam o memorando.

Acontece que o rosto não é apenas uma vitrine das emoções. Ele também participa da conversa. Quando sorrimos, há uma troca entre o que sentimos e o que mostramos. Se os músculos ficam paralisados, essa conversa pode perder um pouco da espontaneidade.

Não é que o botox transforme alguém numa estátua emocional. Mas talvez o cérebro sinta falta de alguns gestos que costumavam lhe contar histórias.

E eu fico pensando na Monalisa.

Será que ela sorri porque está feliz? Porque está escondendo alguma coisa? Ou porque, depois de tantos séculos posando, descobriu que a melhor maneira de conservar a expressão é não se mexer?

Afinal, o tempo deixa marcas. Algumas no rosto, outras na memória. Há rugas que contam histórias e outras que denunciam noites maldormidas, sustos, gargalhadas e até aquela mania de franzir a testa diante de certas notícias.

Podemos suavizá-las. Podemos até tentar apagá-las.

Mas, se a estética nos deixar sem expressão, corremos o risco de ficar com uma cara ótima e um repertório emocional reduzido.

E aí, diante de um sorriso enigmático, como o da Monalisa, talvez a pergunta já não seja o que ela está sentindo.

Talvez seja: será que ela ainda consegue sorrir?

Ilustração criada com ferramentas de inteligência artifgicial sob imagem de pintura de Leonardo da Vinci, Public domain, via Wikimedia Commons

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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