Skip to content
Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

O fim da fila

Ilustração de Ana Helena Reis feita com caneta nanquim preta em papel vermelho

Nossa população está envelhecendo, e não vai demorar muito para que o privilégio mude de lado

Andei tendo pesadelos com filas — fila do cinema, fila do caixa do supermercado, fila de embarque no avião, fila no atendimento do banco… eu ali, imprensada, empurrada, as pessoas passando na minha frente sem a menor cerimônia, ignorando que se tratava de uma pessoa idosa.

A cada dia, uma nova imagem dessas me atrapalhava o sono e, num sobressalto, eu acordava. Ao abrir os olhos, respirava aliviada ao perceber que era só um pesadelo. Afinal, eu vivia em um país em que os maiores de 60 anos têm um privilégio garantido por lei — o Estatuto da Pessoa Idosa, de outubro de 2003, assegura prioridades que nos ajudam a envelhecer com um pouco mais de dignidade.

Com o tempo, os pesadelos sumiram, e eu me vi aproveitando, feliz, os pequenos privilégios da “melhor idade”: o prazer de encontrar uma vaga exclusiva em um estacionamento lotado, de entrar primeiro no avião e me acomodar sem atropelamentos, de sentar tranquila no transporte coletivo. Compensações merecidas pelos percalços do envelhecimento, eu pensava.

Outro dia, no entanto, fui assistir a uma peça de teatro e me deparei com uma cena inesperada. Ao me dirigir à entrada reservada aos idosos, fiquei desnorteada: onde estava a fila? Em vez de uma ordem civilizada, havia um aglomerado de cabelos brancos e cabeças carecas que se acotovelavam num tumulto para marcar seus bilhetes de entrada.

Olhei ao redor e compreendi: praticamente todos ali já tinham passado dos 60. Se fosse para haver uma fila especial, ela deveria ser para os “não idosos”.

Naquela hora, lembrei dos meus antigos pesadelos. Eles não eram delírios, mas premonições. Nossa população está envelhecendo, e não vai demorar muito para que o privilégio mude de lado. Talvez passemos a ver filas exclusivas para os menores de 60 — mais ágeis, mais rápidos, mais conectados —, enquanto nós, os da “melhor idade”, vamos amargar as filas comuns, onde tudo demora.

Porque um esqueceu o documento, outro não consegue abrir o QR code no celular, um terceiro precisa desmontar a mala na esteira para encontrar a tesourinha esquecida. Sem contar aquele senhor na minha frente que mal consegue subir as escadas do ônibus e, por isso, a porta acaba se fechando antes de mim.

Segundo o IBGE, em 2070 o Brasil terá cerca de 75,3 milhões de idosos — quase 40% da população. Bem… pelo menos eu não estarei entre esses milhões de ex-privilegiados. Já é um consolo.

Design Dolce sob imagem por Siska V em Canva

Publicidade | Dolce Morumbi®

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

Demais Publicações

Viagens ao fim do mundo

Destinos remotos que oferecem experiências longe das grandes cidades e do turismo convencional

Timshel: o poder de escolher ver sem se perder

Sobre amor, espelhos e livre-arbítrio

Liderança, conciliação e 28 anos de dedicação no SPFC

Com quase três décadas de dedicação ao clube, criador da tradicional “Turma da Quinta” aposta no diálogo e na união para fortalecer o conselho tricolor

Não é falta de competência

Por que tantas mulheres param antes de chegar ao topo?

Quando a vida nos surpreende com um até logo

Entre despedidas, reencontros e recomeços, o que aprendemos sobre os vínculos que atravessam nossa história?

Democracia e evolução: o poder do discernimento

Por Marco Antonio do Nascimento A democracia representa uma conquista histórica da humanidade. Desde suas primeiras experiências na

A armadilha da verossimilhança quando animais contam histórias

A fabricação de narrativas verossímeis nasce da urgência de sobreviver, mas se consolida na busca por vantagem estratégica sobre a interpretação do real

Você cresceu ou apenas ficou mais ocupada?

Quando sabemos exatamente o que queremos alcançar, conseguimos direcionar melhor nossa atenção, nossas escolhas e nossos comportamentos

A coragem de desagradar

Evitamos incomodar quem está à nossa volta para sermos aceitos, bem-vindos e sobretudo, apreciados

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

dolce-mulher-publ-22-segredos-da-mulher-confiante-post-inst
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções