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Resgatando o decoro em um mundo de grosseria

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Como acomodar nossas paixões e instintos sem abrir mão da dignidade que nos define

Por Paulo Maia

Meu caro leitor e minha querida leitora, tudo bem?

Espero que este texto os encontre em um momento de pausa — aquela fresta de silêncio necessária para escrutinarmos nossas próprias sombras. Hoje, gostaria de falar sobre um valor que parece estar se dissolvendo no ácido da visibilidade digital: a dignidade.

Tenho observado, não apenas nas redes, mas no próprio tecido do cotidiano, que a busca pela idolatria substituiu o dever da decência. Vivemos a era da “lacração”, esse comportamento esdrúxulo revestido de total falta de educação.

Sob o pretexto de ter uma “opinião forte”, muitos se sentem autorizados a exercer a grosseria e o descaso com o decoro como armas de guerra ideológica. O objetivo não é mais o diálogo — esse exercício civilizatório de edificar pontes — mas o “cala-boca” que humilha o outro para arrancar aplausos de uma plateia viciada em viés.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Precisamos entender a dignidade como um horizonte, não como destino. Para avançarmos, precisamos de referências que nos ajudem a entender a nossa estatura.

O filósofo Giovanni Pico della Mirandola (1463–1494), no alvorecer do Renascimento, nos dizia que o ser humano é uma criatura de natureza ambivalente. Podemos nos elevar às alturas da razão ou chafurdar na selvageria dos instintos.

Por outro lado, Immanuel Kant (1724–1804)) nos propôs o rigor do seu imperativo categórico: tratar a humanidade como um fim em si mesma, nunca como um meio para nossos interesses. Mas, sejamos honestos: como observador da vida e dos desdobramentos do ser humano, sei que essas propostas são, muitas vezes, ideais distantes.

Reconheço que nossa natureza é dúbia e frequentemente impermeável à razão pura. Somos animais movidos por paixões e por uma química interna que nos empurra para a preservação do “eu” a qualquer custo. No entanto, é precisamente sabendo que somos imperfeitos que a busca pela dignidade ganha valor. Dignidade não é ser um santo; é a tentativa constante de acomodar nossas paixões às circunstâncias da convivência. Sem esse esforço, o que sobra é a guerra permanente.

Tratar a lacração como mercadoria e o outro como degrau para sua escalada para sair da invisibilidade, não é apenas violência, mas infantilidade.

Na dinâmica da “lacração”, ocorre uma inversão perversa da ética. Quando alguém utiliza a exposição humilhante de um interlocutor para angariar curtidas, está praticando o que Kant chamaria de violação máxima da dignidade: transformar um ser humano em um simples meio para um fim egoísta. No tribunal das redes, o “outro” deixa de ser um sujeito com quem se dialoga para se tornar o objeto sobre o qual se pisa para subir ao palco da visibilidade.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Essa busca por ser idolatrado, em vez de ser digno, é uma vaidade que ignora a nossa própria fragilidade. Se a dignidade não depende do aplauso, a idolatria exige que sacrifiquemos nossa educação no altar do engajamento. Ao “lacrar”, o indivíduo acredita estar demonstrando força, mas revela a incapacidade de conviver com o contraditório sem recorrer à selvageria.

O decoro e a educação não são meras formalidades; são as ferramentas que inventamos para que nossos instintos não nos levem à destruição mútua. O diálogo civilizado exige que reconheçamos a humanidade de quem está do outro lado do abismo ideológico. A verdadeira vitória não está em calar o próximo com um comentário ácido, mas em manter a própria dignidade intacta.

Encerro com uma provocação: na próxima vez que você sentir o impulso de “lacrar”, pergunte-se: “Eu prefiro ser aplaudido por quem já concorda comigo ou prefiro ser digno diante do meu próprio espelho?”.

A verdadeira La Dolce Vita não se encontra na idolatria barulhenta, mas na paz silenciosa de quem escolheu o caminho da civilidade para quando, no apagar das luzes, estarmos tranquilos e sabedores de que escolhemos, como sentido da vida, sermos dignos da experiência dela.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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