Skip to content
Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

A religião da minha infância

A espiritualidade e a religiosidade são fatores extremamente importantes na construção de um adulto

Quando somos pequenos, em muitas famílias (sim, até mesmo cá em Moçambique), somos levados a amar ou adorar certos deuses, religiões e crenças, sem aviso, sem questionamento, sem permissão. Apenas recebemos uma única informação: “Nesta família as coisas são assim e, se quiseres escolher algo diferente, que o faças na tua casa.”

Claro que esse discurso serve para muitas situações, mas quando se trata de questões religiosas e espirituais, a coisa muda de figura — e fica mesmo tensa.

E é aí que vemos crianças de ontem e adultos de hoje incompreendidos, vivendo crenças com as quais pouco se identificam, lutando consigo mesmos sem perceber o que deve ser alterado ou abandonado. Vivem num mundo (para os que se permitem) repleto de descobertas que acabam sendo, obrigatoriamente, vistas como pecadoras.

Imagine, caro leitor e leitora, a situação da mulher que cresceu vestindo apenas saias porque, de acordo com a sua religião, apenas o homem deve vestir calças — e, se a mulher ousar contrariar, estará a pecar da forma mais grave possível.

Imagem de freepik

Ou situações em que o crente acredita que, em um dia específico, independentemente de ter ou não trabalho, o sábado deve ser entregue exclusivamente ao Divino Criador. Dependendo da sua escolha profissional, tudo desmorona, pois o patronato pouco entende de crenças religiosas — apenas de produzir. E esse crente vê-se numa encruzilhada: assumir que algumas coisas são diferentes e estão acima das suas crenças ou apegar-se a elas e ter todos os seus sábados descontados do salário.

Mais ainda: situações em que um dos filhos crentes desenvolve uma orientação sexual diferente do que é aceitável na sociedade e, acima de tudo, na sua religião. Acaba por esconder-se, vivendo em conflito, chegando ao ponto de casar, formar família, mas exercendo aquilo que considera pecado nas sombras. Ou, de forma ainda mais contraditória, aquele crente que comete adultério, mesmo sabendo que é pecado, e finge que nada acontece.

A pergunta que surge é: o problema está na pessoa, no seu carácter, ou nas crenças que lhe foram impostas cedo demais, ao ponto de, na fase adulta, se distorcer e envergar para o fracasso?

A verdade é uma — e já me desculpo, caso esteja a ferir alguma sensibilidade (nada contra as religiões e as suas crenças). Contudo, acredito que impor, desde tenra idade, uma forma rígida de viver e crer, baseada exclusivamente na religiosidade, pode criar barreiras e limitar a criança — e o adulto de amanhã — na percepção do mundo real e cru. Isso pode dificultar o discernimento sobre o que escolher, quando escolher e até como se adaptar aos paradigmas sociais e às suas constantes transformações.

Imagem de rawpixel.com no Magnific

Entenda: não digo que não devemos ensinar religiosidade às crianças. Digo, sim, que devemos permitir que escolham, no futuro, onde se querem converter e por quê. Que cresçam conhecendo as nossas crenças, mas sem se vincularem totalmente a elas. Que possam explorar, questionar e conhecer outras formas de ver a religiosidade e a espiritualidade.

E isso não significa abandonar ou desrespeitar as crenças dos seus progenitores — de forma alguma. Significa aprender a compreender antes de decidir, pois essas decisões podem impactar profundamente toda a sua estrutura familiar.

A espiritualidade e a religiosidade são fatores extremamente importantes na construção de um adulto. Mas uma escolha precipitada — ou imposta — pode deixar marcas ao longo da sua jornada.

Permitam que as vossas crianças escolham o seu destino espiritual.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

Demais Publicações

O gesto na escuridão

O caráter como construção diária

Por que as vilãs parecem sempre conseguir o que querem?

A verdade é simples e uma pouco desconfortável: quem se prepara mais, normalmente chega mais longe

Se tudo é sugerido, o que ainda é escolha sua?

A inteligência artificial já influencia muito mais do que decisões. Aos poucos, ela também começa a moldar preferências, opiniões e até identidades.

Nova loja da Decathlon no Morumbi Town facilita a rotina de quem quer treinar no dia a dia

Com formato inédito no Brasil e foco em corrida, fitness e natação, espaço aposta em conveniência, proximidade e novidades de produto para integrar o esporte à rotina urbana

Menu da minha pausa

Diferente da maternidade, que acaba sendo uma escolha, a menopausa não é opcional

A vida nos impõe dureza

A violência e o medo tentam nos esvaziar, mas a nossa natureza é feita de algo muito mais profundo

Com nova NR-1, empresas passam a responder por riscos ligados à saúde mental

Por Adriana S. Carreira A atualização da NR-1 marca uma inflexão relevante na forma como as empresas brasileiras

Torturante band-aid no calcanhar

Acho que não existe coisa pior do que sentir a presença de alguma coisa que não deveria dar sinal de vida

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

publ-gisele-ribeiro-reiki-16.10.25-1-1
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções