Por Gotardo Luiz Brandalise
Há uma época em que nada entendemos; outra em que começamos compreendemos muito pouco; e uma terceira, mais madura, em que passamos a despertar e entender um pouco mais sobre a vida. Ainda assim, por mais que ampliemos nossa compreensão, vez ou outra me pergunto: qual terá sido a melhor época? Em qual delas eu vivi mais feliz?
Nasci no interior, e uma das lembranças mais remotas que guardo remete aos finais de dezembro. Nossa ocupação era preparar a árvore de Natal, feita com uma pequena araucária colhida no sítio, que deixávamos pronta para a noite que antecedia a chegada do Papai Noel. Tudo precisava estar arrumado, pois ele poderia trazer algo para mim e para minha mana, colocando os presentes junto ao belo presépio.
Para nossa surpresa, na manhã seguinte encontrávamos algumas balas e, talvez, alguns embrulhos contendo pequenas surpresas. Era pouco, mas a felicidade ao despertar naquele dia era imensa.
Um desses presentes, entretanto, permanece vivo em minha memória. Eu tinha entre cinco e seis anos e, ao retornar da casa dos meus avós no dia de Natal, encontrei uma bola de futebol de borracha. Brinquei com ela por poucos dias, até que, em uma tarde, foi chutada em direção a uma cerca de arame e simplesmente rasgou.
A tristeza foi grande no início, mas era compensada nos finais de semana em que nos reuníamos com os primos e jogávamos com a pelota que eles possuíam. Foi assim minha infância: entre bolas feitas de meia e bolas de couro, duras como pedra, mas sempre admirando e amando a brincadeira.
Na puberdade, já no colégio, chegávamos cedo para garantir um lugar no time e poder jogar um pouco antes das aulas ou durante o recreio. A vontade estava no auge.

Foi também nessa época que acompanhei a conquista do tricampeonato mundial do Brasil, na Copa do México, em 1970. A paixão, o prazer e a admiração pelo futebol apenas aumentavam. Ouvíamos falar dos nossos grandes craques atuando em seus clubes com alegria, comprometimento e amor à camisa.
Na juventude, jogando pela equipe da comunidade onde nasci, disputávamos campeonatos e torneios, conquistávamos títulos e vivíamos uma saudável vibração simplesmente por fazer parte do elenco e entrar em campo.
Aos poucos, porém, começaram a surgir os chamados “jogadores enxertos”: atletas talentosos, mas que não pertenciam à comunidade, contratados para aumentar o poder competitivo das equipes. Passava-se a pagar por jogadores, e ali já se percebia o início da mercantilização do esporte, substituindo, pouco a pouco, a identidade local.
Na década de 1980, acompanhava um futebol em que jogadores e técnicos começavam a ter um valor de mercado cada vez maior. Quem pagava mais, levava os melhores. Ainda assim, os clubes contavam com inúmeros talentos: atletas comprometidos, que jogavam com alegria, desprendimento e colocavam emoção na ponta da chuteira. Havia talentos em toda parte do campo, um ótimo lateral, zagueiro, meio campo, ponteiros, centroavantes enfim, exímios jogadores que brindavam os torcedores nos estádios ou pela televisão.

Porém aos poucos a mercantilização ganha força. Jogadores, técnicos, empresários e patrocinadores passaram a exercer influência crescente sobre as equipes/jogadores, que se tornaram hospedeiros de um negócio comandado por poucos (conforme figura acima). Os atletas transformaram-se em vitrines e produtos de consumo. Antes jogava-se com os pés; hoje no futebol profissional joga-se pelo valor que se pode gerar aos cofres.
O futebol-arte brasileiro, admirado em todo o planeta, começou a ruir. Esquemas táticos e interesses comerciais passaram a uniformizar o espetáculo, que em certos momentos, mais se assemelha a um jogo de computador, reduzindo a criatividade, a alegria e a emoção que sempre caracterizaram nosso futebol.
Quando surge um talento, rapidamente ele é levado à mesa dos negócios. Mesmo recebendo fortunas, muitas vezes torna-se apenas uma peça em um sistema maior, conduzido por aqueles que comandam o espetáculo (e que está deixando de ser espetáculo).
O futebol, por sua enorme capacidade de mobilizar a sociedade e pelos valores financeiros envolvidos, continua sendo o esporte que movimenta o maior faturamento do mercado. Entretanto, essa realidade não está restrita somente a este pois nos outros esportes também seguem pelo mesmo caminho, embora com menor percepção.

Sinto pelos jovens que entram nos esportes de corpo e alma e encontram uma mídia preparada para fazê-los consumir um produto que, no fim, beneficiará principalmente uma pequena parcela daqueles que enxergam no talento humano apenas uma oportunidade de negócios, de faturamento. E pelos dados estatísticos cerca de 1% dos jovens que ingressam em escolinhas chegam ao futebol profissional e destes estima-se que entre 1 e 5 jovens em cada 10.000 a alcançam clubes de elite e tem salários super remunerados.
E observando tudo isso, volto à pergunta inicial: em que época fomos mais felizes? Talvez naquela em que compreendíamos menos, mas sentíamos mais. Naquela em que uma simples bola de borracha, algumas balas ao pé de uma pequena araucária no presépio e um campo improvisado eram suficientes para nos fazer acreditar que tínhamos o mundo inteiro em nossas mãos.
Estamos consumindo ou sendo consumidos. Estamos enxergando efetivamente o que há por detrás da grande cortina? E uma pergunta desafiadora: para os mundos vindouros, como estou me preparando?

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