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Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

E se o segundo casamento fosse com a mesma pessoa?

Divulgação Netflix

Sobre traição, perdão, cicatrizes e a possibilidade de reconstruir o amor onde ele se partiu

Há dores que não pedem licença. Chegam sem avisar, abalam as nossas certezas mais bonitas e deixam-nos a olhar para os escombros daquilo que chamávamos de “nós”. A infidelidade é uma dessas tempestades. Numa era em que tudo parece tão efémero, em que trocamos de tela com a mesma facilidade com que mudamos de canal, falar de traição deixou de ser apenas falar de sexo.

 É falar de intimidade. De segredo. De desejo. De validação. De limites. E, sobretudo, daquilo que acontece dentro de nós quando deixamos de nos sentir vistos.

Tenho pensado muito sobre isto depois de acompanhar os episódios do reality show da Netflix, Cheat Unfinished Business. A premissa é dolorosa e crua: casais reúnem-se num retiro para tentar perceber se ainda existe um “nós” depois da infidelidade. Alguns chegam ali depois de anos de segredos; outros são confrontados perante revelações que acontecem diante das câmaras.

Num dos momentos mais marcantes, um dos participantes, separado por outra ala da mulher que dizia querer reconquistar, começa a alimentar um “flirt subtil” (flerte sutil) com outra mulher do retiro que também havia sido vítima de traição. Nada parece, inicialmente, suficientemente grave para receber o nome de traição. Uma conversa. Um olhar. Uma aproximação. Uma cumplicidade.

Aquele homem perdeu a mulher que amava por não entender algo fundamental: no amor, a ambiguidade é um jogo perigoso. Quantas vezes ouvimos (ou justificamos) a célebre frase “é só uma amiga, gosto apenas de conversar”? Mas pergunto-me, com a máxima honestidade: o que procuramos nessas “conversas inocentes” fora de casa que não possamos levar para a nossa parceria de vida? O perigo raramente nasce na cama de hotel; começa no segredo, no olhar cúmplice alimentado à margem e na validação que roubamos a quem nos ama. Como o coach Paul Brunson lembrou à participante que passou mais uma vez pela humilhação de ser traída e, desta vez, perante as câmeras, o verdadeiro empoderamento não é mudar o outro, mas decidir onde começa o nosso limite de autorrespeito.

Nem toda a amizade é uma ameaça. Nem toda a proximidade é infidelidade. E seria perigoso transformar qualquer ligação fora do casal numa suspeita. O problema começa quando existe segredo. Quando há mensagens que não queremos que o outro veja. Quando escondemos a intensidade de uma ligação. Quando começamos a proteger uma relação paralela em vez de proteger a relação que escolhemos construir.

A traição raramente começa no quarto de um hotel. Muitas vezes começa muito antes: num espaço secreto onde alguém se sente desejado, admirado, jovem, interessante ou novamente vivo.

E talvez seja por isso que a infidelidade seja tão difícil de compreender.

Porque, por vezes, a pessoa que trai não está necessariamente a fugir do parceiro. Está a fugir de uma versão de si própria que deixou de reconhecer.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Magnific

A criança que não quer crescer

Esta busca compulsiva por atenção alheia lembra-me o diagnóstico da psicoterapeuta Esther Perel sobre os “mulherengos crónicos”. Homens que passam anos em chat rooms, conversas paralelas ou encontros virtuais, muitas vezes para alimentar uma necessidade desesperada de validação.

Raramente é sobre o outro; é sobre uma criança interior insegura que recusa crescer e que usa os seus traumas ou a história de vida como um salvo-conduto. Do outro lado, quase sempre encontramos uma mulher que passou décadas a calar as suas próprias dores para poupar o parceiro. A lição de Perel é um choque de lucidez contra a auto vitimização de quem fere: o traidor coloca-se frequentemente no papel de vítima para justificar o injustificável, alegando que o casamento já não ia bem, que faltava intimidade ou que a relação estava desgastada. Para quem ama, a libertação começa quando decide parar de viver em função das carências do parceiro e resgata a sua própria dignidade.”

O peso da dor moderna e o julgamento de ficar

A verdade é que a infidelidade hoje dói de uma forma diferente. Não ameaça apenas o nosso teto; ameaça a nossa identidade. Quando descobrimos uma traição — seja uma ligação profunda, um segredo guardado ou o desejo partilhado com um estranho —, a pergunta que nos assombra não é apenas “porque o fizeste?”, mas “quem sou eu e que vida andei eu a construir?”.

Vimos isso acontecer recentemente com a influencer Tulla Luana, casada há 21 anos, que expôs nas redes a descoberta de mensagens íntimas e fetiches virtuais do marido. Decidiu perdoar, é verdade, mas assumiu a dor e a dificuldade de reconstruir o que se partiu. E aqui surge o novo estigma da nossa época: se antigamente havia vergonha no divórcio, hoje há uma enorme cobrança social sobre quem escolhe ficar e tentar de novo.

“Se traiu, deixa.”

“Se perdoaste, não tens amor-próprio.”

“Se ficas, és ingénua.”

Mas talvez as relações humanas sejam demasiadas complexas para caberem em frases feitas. Há quem não consiga continuar depois de uma traição. Há quem consiga. Há quem perdoe, mas nunca volte a confiar. Há quem descubra, no processo de reconstrução, uma relação mais verdadeira do que aquela que existia antes.

Ficar não é necessariamente fraqueza. Partir não é necessariamente fracasso. Perdoar não significa esquecer. E compreender não significa absolver.

Cada casal terá de encontrar a sua própria resposta.

Ilustração baseada em imagem gratuita em Magnific, gerada com ferramentas de inteligência artificial.

O segundo casamento com a mesma pessoa

Esther Perel, que cresceu sendo filha de sobreviventes do Holocausto, ensina-nos algo profundamente humano: a vida tem uma capacidade inacreditável de se reerguer, mesmo após os piores traumas.

Para os casais que olham para os cacos da sua história, ela propõe um olhar de coragem: o vosso primeiro casamento acabou. Têm a vontade e o amor necessários para construir um segundo casamento com a mesma pessoa?

Reconstruir exige passar pelo luto da relação antiga, ter um remorso genuíno e empático de quem errou e, acima de tudo, criar novas regras de transparência.

Depois de uma infidelidade, talvez não seja possível simplesmente reconstruir o casamento que existia.

Porque aquele casamento acabou.

Acabou a inocência. Acabou a ideia de que conhecíamos completamente o outro. E acabou, muitas vezes, a própria versão de nós que existia naquela relação.

É aqui que uma antiga arte japonesa me parece oferecer uma metáfora extraordinariamente bela para o amor depois da ruptura: o Kintsugi.

Na tradição japonesa, quando uma peça de cerâmica se parte, os fragmentos não são escondidos nem se tenta apagar a história daquilo que aconteceu. São cuidadosamente unidos através de uma laca misturada com pó de ouro. As cicatrizes ficam visíveis. As fissuras não são disfarçadas. São transformadas em parte da beleza da peça.

Talvez alguns casais possam fazer algo semelhante depois de uma infidelidade.

Não colar simplesmente os pedaços para fingir que nada aconteceu. Não voltar à relação anterior como se fosse possível apagar a dor, a desilusão e os segredos.

Mas fazer o luto daquele primeiro casamento. Olhar para aquilo que se partiu. Perceber por quê. Assumir responsabilidades. Chorar o que foi perdido. E só depois perguntar se existe amor, coragem e vontade suficientes para construir uma nova relação sobre os fragmentos da antiga.

Um segundo casamento com a mesma pessoa. Não necessariamente mais perfeito. Mas talvez mais verdadeiro.

Porque depois de uma crise desta dimensão já não se pode amar com a inocência de antes. Pode, porém, amar-se com maior consciência.

As fissuras permanecem. A memória permanece. A cicatriz permanece. Mas aquilo que antes era uma ferida pode, com tempo, responsabilidade, verdade e cuidado, transformar-se numa marca de crescimento.

É essa, talvez, a beleza do Kintsugi: não nos ensina a celebrar aquilo que nos partiu, mas a reconhecer que uma coisa quebrada não está necessariamente condenada a deixar de ter valor.

Também o amor pode sobreviver à imperfeição. Mas não a qualquer preço.

Para que exista reconstrução, é necessário que quem traiu consiga olhar de frente para a dor que provocou, sem se esconder atrás de justificações. E que quem foi traído possa decidir, livremente, se quer permanecer — não por medo, dependência ou pressão, mas porque acredita que existe uma nova história para escrever.

Ilustração baseada em imagem gratuita em Magnific, gerada com ferramentas de inteligência artificial.

A verdadeira fidelidade

No final, talvez a pergunta mais importante depois de uma infidelidade não seja apenas: “Conseguirei voltar a confiar em ti?”. Talvez seja: “Conseguirei voltar a confiar em mim?”

Confiar na minha intuição. Nos meus limites. Naquilo que sinto. Na minha capacidade de dizer não.Na minha capacidade de ficar sem me abandonar. Ou de partir sem me destruir.

Porque talvez a maior fidelidade que podemos praticar na vida seja esta: não nos perdermos de nós próprios enquanto tentamos salvar o amor.

E se duas pessoas decidirem voltar a escolher-se, que não seja para reconstruir aquilo que existia. Que seja para criar algo novo.

Como no Kintsugi, que as marcas não sejam escondidas. Que sejam reconhecidas. Que contém a história daquilo que aconteceu, daquilo que doeu e, sobretudo, daquilo que os dois foram capazes de aprender.

Porque há relações que, depois de partidas, nunca mais voltam a ser inteiras.

E há outras que descobrem uma forma diferente de inteireza: não a perfeição de nunca ter quebrado, mas a beleza de ter sido quebrado — e, ainda assim, ter encontrado uma maneira de voltar a amar.

Não se trata de esconder as fissuras. Trata-se de transformar as cicatrizes em parte da história.

Divulgação Netflix

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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