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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Não é amizade se eu tiver medo de te corrigir

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Uma das formas mais bonitas da demonstração de afeto é ter a coragem de não passar a mão na cabeça de quem amamos

Está na hora de normalizarmos uma coisa que parece ter-se tornado quase proibida nas amizades: corrigir quem amamos.

Vivemos numa época em que qualquer chamada de atenção é interpretada como inveja, julgamento, falta de apoio ou, pior ainda, falta de amor.

Então fazemos o quê?

Vemos o nosso amigo tomar decisões erradas… e ficamos calados.

Vemos comportamentos que sabemos que lhe fazem mal… e fingimos que não vimos.

Ouvimos histórias em que sabemos que ele está errado e respondemos: “Tu é que sabes.”

Tudo para quê?

Para não criar conflito.

Para não parecermos chatos.

Para continuarmos a ser “o amigo fixe”.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Mas espera lá…

Desde quando é que ser amigo passou a significar ser cúmplice?

Eu posso amar-te profundamente e, ainda assim, olhar-te nos olhos e dizer: “Meu amigo, estás a fazer merda.”

Posso estar do teu lado e não estar de acordo contigo.

Posso defender-te perante o mundo e, quando ficarmos sozinhos, dizer: “Aqui estiveste errado.”

E isso não diminui o meu amor por ti.

Pelo contrário.

Há uma certa violência em ver alguém que amamos caminhar para o precipício e escolher o silêncio só porque temos medo de que a nossa verdade lhe desagrade.

Porque amigo não é quem te aplaude em todas as decisões.

Às vezes, amigo é aquele que estraga o aplauso para te devolver à realidade.

É aquele que te diz aquilo que ninguém quer dizer, mesmo sabendo que podes ficar chateado.

É aquele que prefere perder a tua aprovação naquele momento a perder-te para uma escolha que poderia ter sido evitada.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Claro que existe uma diferença entre corrigir e humilhar.

Entre aconselhar e controlar.

Entre dizer uma verdade por amor e despejar opiniões por arrogância.

Mas essa diferença não pode servir de desculpa para a nossa covardia.

Porque, sejamos honestos…

Muitas vezes não ficamos calados porque respeitamos o nosso amigo.

Ficamos calados porque não queremos lidar com a reação dele.

E isso é muito diferente.

Eu quero amigos que tenham coragem de me dizer a verdade.

Não quero uma plateia.

Não quero pessoas que concordem comigo só porque gostam de mim.

Quero alguém que consiga olhar para mim e dizer: “Eu amo-te. Mas nisso estás completamente errada.”

E depois… continuar sentado ao meu lado.

Porque talvez uma das formas mais bonitas de amar alguém seja exatamente essa: ter coragem de não passar a mão na cabeça de quem amamos.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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