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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Match fatal

Ilustração de Ana Helena Reis através de uma composição de foto e desenho feito com Apple Pencil

O algoritmo tinha mais senso de humor do que ele imaginava; e bem melhor do que o dele

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Nunca tinha entrado em sites de relacionamento, mas naquela noite decidiu experimentar. O universo digital estava ali, ao alcance de um clique — por que não se aventurar?

Ouviu dizer que era uma forma infalível de conhecer mulheres disponíveis. Bastava preencher alguns parâmetros, fazer a triagem virtual e pronto: nada de encontros no escuro, indicados por amigos bem-intencionados que terminam em desastre. Pior ainda: depois a pessoa já sabe seu nome, seu telefone e é conhecida de conhecidos… difícil se livrar.

Escolhido o site, passou ao checklist da mulher ideal:

  • Idade: 25 a 35 — jovem, claro.
  • Magra, bonita, cuida do corpo — o visual é essencial.
  • Exercícios pelo menos 3x por semana: musculação, pilates, bike, corrida — alguém que acompanhe seu ritmo.
  • Superior completo, pós desejável — pelo menos um mínimo de cultura.
  • Português perfeito, inglês ou outra língua — viajar sem virar tradutor.
  • Profissão com cargo gerencial ou acima — mulher independente, bem-sucedida.
  • Hobbies: leitura, viagens, culinária, dança, cinema, teatro, música — parceira para todas as horas.
  • Procurando relacionamento sério, mas sem compromisso — casar, nem pensar.

Confiante, clicou em “salvar”. A sorte estava lançada.

Likes e mensagens começaram a aparecer rápido, acompanhados de fotos promissoras. Empolgado, abriu a primeira. Choque: preenchia quatro dos sete requisitos, mas escrevia como analfabeta, curtia funk e trabalhava no atendimento de uma lanchonete. Nada contra — mas não era o perfil. Descartada.

A segunda parecia perfeita no papel, mas pela foto não fazia exercício há anos, estava bem acima do peso e queria apenas uma transa. Fora.

A terceira, impecável no checklist. Só que buscava um homem de até 40, malhado, baladeiro. E ainda fumava. Nem pensar.

Assim seguiu, descartando uma a uma. Até que parou para refletir: será que o problema era o algoritmo ou o próprio perfil que ele montara? Releu os requisitos com atenção. Tudo parecia essencial… ou será que não?

Depois de muito pensar, aceitou flexibilizar um ponto: a idade. Alterou de 25–35 para 40–50 anos. E esperou.

Logo surgiram várias opções. Uma delas, segundo o site, com 100% de afinidade. Ansioso, clicou para abrir.

E qual não foi sua surpresa: cara a cara com a ex.

O algoritmo tinha mais senso de humor do que ele imaginava. E bem melhor do que o dele.

Design Dolce sob imagem por Andrey Popov em Canva

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Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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