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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

As cortinas do meu infinito

Ilustração de Ana Helena Reis feita com pinceladas de tinta guache em papel Canson

É ali que sonho amores embalados pelos LPs que giravam na vitrola — riscadinhos, mas perfeitos para o coração em formação

Já cantava minha mui querida Rita Lee — Baila comigo — lá no meu esconderijo.

O meu, secretíssimo. Um canto feito de flores antigas, perfumes esquecidos e a luz dourada das tardes de outono. Raios que riscam as frestas das cortinas voadoras e transformam minha janela num portal.

Um portal para o infinito, dentro de mim.

É ali que reparto com minha criança interior o sabor das balas puxa-puxa compradas na beira da estrada. É ali que revivo o arrepio ingênuo dos primeiros corpo a corpo nas aulas de dança.

Reprodução

É ali que sonho amores embalados pelos LPs que giravam na vitrola — riscadinhos, mas perfeitos para o coração em formação.

Nesse túnel do tempo, vejo as hortênsias do jardim nas manhãs frias de inverno, o telefone preto de parede ecoando no corredor, o DKW saia e blusa do meu pai dobrando a esquina, a coleção de Agatha Christie da minha mãe guardada como tesouro.

E na hora H, me reencontro: tranças brancas, bochechas coradas, deitada na grama, tomando banho de sol, esperando o pão doce do lanche — num domingo que nunca termina.

E bailo.

Bailo porque a cadência me aquece como um ventre generoso, onde tudo recomeça.

Do fundo do meu esconderijo — semente que adormece antes da primavera — escuto um eco que responde no mesmo diapasão.

E então ele vem bailar comigo, como se baila na tribo: íntimo, ancestral, inevitável.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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