Os enganos do General

Por Bernardo J. B. Figueiredo

Eu, Morvan, fui designado, pela empresa que trabalho, para Porto Alegre, a fim de adquirir um terreno próximo ao aeroporto, para instalar uma indústria de laminados de ferro. La, conheci uma moça, Eliana, que não era bonita, mas de alma adocicada, iniciando com ela um flerte. Encontrávamos sempre em lugares públicos, por ordem expressa do General, seu pai. Por não me conhecer, não confiava em mim e sim nela. Certo dia me convidou para jantar em sua residência. No horário marcado, toquei a campainha e o próprio veio me atender junto com a filha e esposa. Nos conduzimos para a sala de visitas, onde me sentei num sofá ao lado de sua filha. Aproveitei a proximidade para lhe segurar a mão, dando sinal ao General e esposa que estávamos prestes a namorar. Ele então me disse:

– Você me parece um bom rapaz, mas, muitas vezes, as aparências enganam. Concorda comigo?

– A vida é uma caixinha de surpresas. Temos que dar tempo ao tempo. Sua tutela tira de sua filha o direito de se aventurar em sua própria escolha, mesmo que esteja correndo um suposto perigo. É assim que flui a vida. Ela já é suficiente adulta para saber se defender, de acordo com sua própria consciência e moral. Concorda comigo?

– Não! Eu tenho que me pôr a frente da Eliana para, com minha experiência adulta de vida, defendê-la dos perigos, que, neste momento, ela possa estar correndo. É obrigação de pai zeloso pela segurança da filha, que não vê, ainda, pela sua juventude e falta de amadurecimento, o perigo ao qual se expõe. Concorda comigo?

– De certa forma, sim, de outra, não. O amadurecimento das pessoas só acontece com trombadas pelo caminho da vida vivida. Seu sentimento protetor inibe a autodefesa de se enamorar por um desconhecido, necessário para enfrentar a própria vida com prudência, decência e sabedoria. É essa a astúcia que tem que passar para sua filha e não a facilidade da clausura.

O General pediu a sua esposa e filha que se retirassem porque queria conversar com Morvan em particular. Elas obedeceram.

– Os cariocas têm fama de serem pegadores em busca apenas de relação sexual.

– Eu sou um deles. Mas, no caso de sua filha, não, pois, se dermos certo em todos os quesitos do amor, não sei se me entende, quero-a como esposa, da maneira que imagino que agiu com sua companheira.

– Estou a gostar de sua sinceridade. Falas o que pensa e não escamoteia com falsos argumentos. Eu, em particular, o aprovei para marido de minha filha, mas, sob condições, ou seja, nada de beijos na boca, que se liga em cima para esquentar em baixo, tentando os casais à relação sexual. Quero minha filha virgem para o casamento.

– Não concordo com esse enganoso procedimento virtual, pois esfria e acaba com o amor, desfazendo a relação amorosa, que precisa desses quesitos para fluir para o casamento. Você agiu assim com sua esposa? 

– Meu caso com ela não está em pauta. Você me vende confiança e vou largá-la em suas mãos com a promessa de cumprir o que te pedi.

– Meu pai me ensinou que amor existe sim, mas nunca a pomos onde estamos e nem estamos onde a pomos. É o que está a me pedir, driblando-nos e a si próprio. Eu lhe prometo agir desse modo, mas, se não der certo, a responsabilidade é mais sua do que minha.

Imagem de Karin Henseler por Pixabay

O tempo correu da forma exigida pelo General até o dia da despedida, pois a firma onde trabalhava, com o serviço terminado, o chamou de volta. A despedida se deu no portão da casa do General. Mas, antes, como de costume, Morvan pediu para ir ao banheiro e, quando lavava as mãos, viu escrito com batom no espelho da pia. “Há sempre um amanhã e o amanhã sempre traz alguém”. A despedida foi fria e Morvan engoliu a seco o seu pedido de casamento e retornou para o Rio de Janeiro, onde conheceu Lurdes e se casou com ela. Pelo lado da Eliana, usando os preceitos adquiridos da vida, ela se enamorou de um alemão e se casou com ele, com quem foi muito feliz. A conclusão que se chega é que “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Bernardo J. B. Figueiredo é romancista e autor de “Em busca da eternidade”, conto já publicado aqui na Dolce Morumbi®
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