Perpétuo

Por Matheus Zucato

Ele olhava através da janela de seu apartamento, em devaneio. Não cabe aqui categorizar ou não tal evento como inanição; chamemos devaneio, somente. Vivia seus últimos dias: recebera o diagnóstico havia um mês e percebia que piorava. Optara pela omissão dos fatos, de modo que sua família de nada soubesse. Mentiu ao hospital, informando aos funcionários e médicos de que não tinha ninguém. Haveria piores preocupações do que aquela? Moravam tão longe. Não, não daria aos familiares a aborrecível obrigação de intervirem.

Só de pensar nos comentários a respeito de sua morte iminente já sentia calafrios tão certos quanto a própria morte em si. “Afinal, por que tememos morrer?”, pensava. Constrangia-se do fato de ter passado a vida a evitar qualquer discussão sobre um acontecimento assaz natural, e de só ter considerado o assunto quando havia uma íntima aproximação entre os dois antagonistas: vida e morte. Aí, não restou outra escolha.

E aquele rapaz passara o último mês submerso em um oceano mórbido; mas, aprendera a respirar debaixo d’água, e agora aceitava o fato com mais sinceridade e menos medo. Levara semanas até encontrar a coragem para montar o difícil quebra-cabeças que é a vida. Encaixou a última peça e olhou tudo aquilo de cima. Percebeu como a vida é bela. Bela e natural.

Foi retirado de seu devaneio ao perceber, em uma das várias janelas do pequeno edifício próximo ao seu, uma mulher. Teve de forçar a vista para observar alguns detalhes da moça que conversava ao telefone: era morena clara, tinha os cabelos cacheados, caídos sobre os ombros com efeito de redemoinho em ouro e prata; era, realmente, uma mulher. Metida em roupas caseiras, ela tinha curvas como tem o oceano quando está agitado. Chamou-a, mentalmente, de Tálassa, como a deusa mitológica grega do mar, visto que não sabia seu nome. Era apropriado.

Observou-a durante todos os minutos que pôde. Teria marido? Teria filhos? Antes, teriam importância aquelas perguntas? Decidiu que não. Enquanto ela falava, também fitava o mundo exterior ao apartamento. Quem sabe ela o visse, pensou. Ele não pôde ver se a moça estava irritada, feliz, triste ou preocupada. Fazia diferença, naquele ponto? Admirou-o como Tálassa posava ao conversar, com a cabeça a apoiar o telefone sobre o ombro; os cabelos caídos em espirais irmãs: era a mais bela cachoeira do mundo, convidativa para um mergulho na misteriosa vida daquela vizinha até então desconhecida. As mãos ajeitavam as cortinas brancas de tecido fino que lhe davam um ar muito mais delicado. Tálassa era realmente bela, concluiu.

Quando ela desligou o telefone, continuou a fitar o exterior. Olhava, longe, os acinzentados edifícios a circundar a pequena praça toda arborizada de seu bairro. Eram raros tais ambientes em cidades grandes, como aquela. Ela passou os olhos por algumas casas antigas sobreviventes à modernidade e, então, voltou a percorrer as janelas dos prédios agora mais próximos ao seu, até que paralisou ao perceber no vetusto edifício amarelo o rosto de um homem a observá-la.

Ele não desviou o olhar ao percebê-la, e ela retribuiu sua atitude, encarando-o de volta. O rapaz pôde jurar que conseguiu ver na moça um par de olhos claros, amarelados, o que a dava certo ar jovial, muito mais encantador que tudo o que havia visto até então.

Ficaram assim pelo tempo que precisaram. Resultou, simultaneamente, em paixão. Ela levantou os braços levemente na direção do rapaz, com os dedos bem esticados. O homem retribuiu o aceno, mas percebeu que ela não agitava sua mão. Segundos depois, concluiu que aquilo não era um aceno, era um sinal, um número: cinco? Apartamento de número cinco. Automaticamente, o rapaz se levantou de sua cadeira e dirigiu-se para dentro; Tálassa deu meia volta e decidiu abrir uma garrafa de vinho. A cortina, feito névoa, fê-la desvanecer no interior do apartamento.

O rapaz colocou um elegante sobretudo; era inverno na cidade grande. Calçou os sapatos e borrifou seu único perfume no pescoço. Antes de atingir a entrada, olhou-se no espelho e animou-se. Sentia-se vivo, mais vivo que nunca: havia se enganado sobre a peça final daquele quebra-cabeças e, agora, optava pela peça que melhor encaixava na imagem da vida. Descobriu que podia emergir à superfície do denso oceano e respirar ar puro; e, se não tivesse tanto tempo, não importava, pois decidira, na janela de seu apartamento, que mais perpétua que a morte é a vontade de viver. E o amor.

De Minas Gerais, Matheus Zucato é autor dos livros “Os Dois Fazendeiros” (Autografia, 2018), e “Realidades Rompidas” (Edição do autor, 2021). Participante em algumas antologias de contos e cronista mensal em jornais de São Paulo e Minas Gerais, desde 2018. Foi vencedor do I Concurso de Contos de Iguaba Grande (AACLIG – RJ) em 2019, recebeu menção honrosa no VIII Concurso Literário da Academia Penedense de Letras (APLACC – AL) em 2022, e foi segundo lugar no VII Concurso Literário da Academia Leopoldinense de Letras (ALLA – MG) também em 2022

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