Relatório Digital feito por empresas internacionais da área de tecnologia e social media mostrou que, em 2024, os brasileiros passaram em média 9h13 minutos por dia na internet, fazendo com que o Brasil ocupasse assim o segundo lugar entre os países que mais ficam conectados à rede. Tais dados ajudam a explicar melhor o cenário da leitura do país na atualidade, que mostra um decrescimento do número de leitores. Segundo pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita pelo Instituto Ipec, com 5.504 pessoas, entre abril e julho do ano passado, 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores ao levantamento.
A conclusão é óbvia: quanto mais tempo um indivíduo passa com os olhos grudados na tela de um computador ou smartphone, menos ele se dedica à leitura de um livro físico. A estrategista editorial e especialista em marketing para livros e escritores, Dany Sakugawa, classifica essa competição como injusta. “De um lado temos o livro, há séculos uma forma consolidada de educação e entretenimento, mas que demanda concentração e um investimento de tempo longo por parte dos leitores. Do outro lado, temos os celulares, que tem vídeos, aplicativos e jogos construídos estrategicamente, de modo a fazer o usuário perder a noção do tempo”, diz.

Com base no best-seller Hooked, do escritor Nir Eyal, a estrategista editorial explica por que é tão difícil para os livros competirem com o uso de celulares pela atenção das pessoas. Segundo ela, a lógica de retenção utilizada pelos dispositivos eletrônicos respeita o seguinte ciclo: gatilho, ação, investimento, recompensa. Por exemplo, um vídeo funciona como um ganho que captura a atenção do usuário, que a partir daí realiza uma ação (segue no vídeo ou vai para o próximo). Se decide ficar, está investindo o seu tempo naquele conteúdo. Tal decisão alimenta o algoritmo, que entende aquilo como um sinal de que deve enviar mais vídeos como aquele para o usuário (como uma recompensa), mantendo-o mais tempo conectado.
Conforme Dany, tal processo cria um ciclo vicioso, que não só torna cativa a atenção da pessoa, como também prejudica a sua capacidade de concentração. “Ela fica viciada em ganchos, por isso fica passando os vídeos, um depois do outro”, diz. O livro, por sua vez, explica a especialista em marketing para livros e escritores, não segue essa lógica; ele exige concentração. “Sendo assim, o leitor acaba rapidamente se desengajando, perdendo o interesse e buscando alguma forma de entretenimento que traga essas recompensas mais intensas”, afirma.
A coexistência entre os dois mundos é possível
O fato de aparelhos eletrônicos, principalmente smartphones, estarem roubando leitores em potencial não significa que esses aparelhos devam ser demonizados, pondera a estrategista editorial. Muito pelo contrário, ressalta ela, pois essa tecnologia permite realizar uma série de ações que há pouco tempo eram inimagináveis como pesquisar informações sobre uma variedade incrível de temas e em tempo real. O mais certo seria que os dois hábitos (leitura e uso de celular) pudessem coexistir. Mas, para isso, destaca Dany, o indivíduo precisa estar consciente de que o dispositivo móvel pode se tornar um vício. “Se ele não ficar atento, pode facilmente se deixar levar por esse apelo das telas. Então, seu comportamento precisa ser intencional e consciente”, enfatiza.

Como forma de equilibrar o uso do celular e a leitura de livros físicos, a especialista sugere algumas ações simples, como, por exemplo: colocar um limite de tempo no uso de determinados aplicativos; estabelecer uma rotina de leitura, que pode ser de quinze minutos por dia; e participar de clubes de leitura. Como estratégia para que a ler se torne efetivamente uma prática corriqueira, Dany recomenda colocar um objetivo para a leitura, como, por exemplo: adquirir uma nova habilidade, conhecer a história de determinada pessoa ou explorar algum universo imaginário. “Sem encontrar a sua zona de conforto na leitura, dificilmente um leitor instala esse hábito na sua vida”, diz.
Para muitos, dedicar-se ao hábito da leitura significa ler livros físicos, o que cada vez pessoas estão voltando a fazer na esteira da crescente conscientização sobre os impactos negativos do uso de smartphones, segundo a estrategista editorial. Entretanto, há aqueles para quem o hábito da leitura não é excludente ao uso de aparelhos eletrônicos. A esse público, os audiolivros estão se tornaram uma alternativa real, principalmente por sua praticidade, afinal, é possível ouvi-los no caminho do trabalho ou enquanto se pratica exercícios físicos. “Para se ter uma ideia, de 2023 para 2024, houve um crescimento acumulado de 98,5% no consumo de audiolivros, tendência que deve se manter por um bom tempo nos próximos anos com base nos investimentos das editoras e plataformas de audiobooks”, afirma a especialista.
Além de audiolivros, os dois universos podem coexistir de outras maneiras, comenta Dany. Por exemplo, autores e editoras podem usar o mundo online para despertar atenção para si e para seus produtos, se tornando criadores de conteúdo e buscando parcerias com influenciadores, respectivamente. “Esses dois exemplos já são amplamente utilizados, mas ainda precisam expandir muito para que de fato criem essas pontes saudáveis e produtivas”, conclui.

Dany Sakugawa é estrategista editorial e especialista em marketing para livros e escritores. Atuou como executiva por mais de 10 anos no mercado editorial e atualmente lidera o Método The Book Business. Ao longo de sua carreira, foram mais de 500 autores lançados, mais de 10 milhões de exemplares vendidos e centenas de best-sellers nas listas dos Livros Mais Vendidos. É formada em Comunicação pela Cásper Líbero, pós-graduada pela PUC e com MBA Executivo pelo Insper.
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