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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Grito de uma mulher traída

Design Dolce sob imagem por Nat Studio em Canva

O que faço com a quebra de confiança, com o abandono, com o vazio que me inunda a alma?

A minha beleza é inquestionável em todas as áreas, a categoria de esposa é preenchida por mim com uma capacidade indelével e indiscutível e pode se dizer que para perfeição só me faltam uns 20%, e mesmo assim  a traição chegou, e aparentemente chegou com toda sua voluptuosa pompa digna de um machista com a máscara de esposo e pai perfeito.

Por quê? Porque a rua te deliciares quando em casa encontras o filé mignon mais terrinho de toda França? Escolhes trair-me por belo prazer. Será que a cada penetração é o meu rosto que vês? Que a cada orgasmo sussurras em seu ouvido gritando por mim?

Ajuda-me a entender pois nao consigo. A minha mente não me permite crer que em todas manhãs com o teu olhar fixo gritas para a minha alma “és a melhor coisa que me aconteceu”, e no fim nao são os meus gemidos abafados que escolhes.

Juro a ti que tento engolir a seco, acreditar que são apenas casos sexuais e mais nada, mas logo me vem à mente que a cada penetração, escolhes conscientemente enroscar a tua alma nelas e no fim vens para mim como se da praia da Costa de Sol se tratasse e precisasses libertar os tubos do teu esgoto, cada espírito que recolhes na rua.

Design Dolce sob imagem por halfpoint em Canva

Até quando será o teu limite? Em algum momento foste fiel? Dói em ti essa possibilidade ou pela falta de atração por mim será? O que lhe falta? Ou é o excesso? Quantas Isabeis, Sheilas, Tanias, Nadias, Telmas, Yaras,  etc., faltam? A cada troca de orgasmos, a minha alma sente, a cada espírito que trazes para a nossa cama, o meu desejo por ti some parecendo um ato de bruxaria.

Tens noção do quanto isso me dilacera? E tudo porque e para que? Satisfação da sua masculinidade? E a minha feminilidade, onde fica? Enfio no convés das minhas entranhas? Me explica, pois grito com dor e desespero.

O que faço com a quebra de confiança, com o abandono, com o vazio que me inunda a alma? O que faço eu? Esperas ou queres que renuncie ao meu titulo para que sejas o Rei Boêmio mais cobiçado? Ou a ideia é ser a esposa puritana e equilibrada que nunca reclama de nada e apenas desfruta dos louros financeiros apodrecendo por dentro? Qual é a proposta?

Design Dolce sob imagem por Valerii Honcharuk em Canva

Ando na rua, linda e poderosa, mas no fim me sinto-me o ser mais sujo de tanto estar a carregar os espíritos de dezenas de mulheres com o coração amargo. Amargo, sim, repito! Pois é uma escolha ser amante, garantido a sua felicidade com a tristeza e a infelicidade de outrem, e no fim gritarem, mas és mãe grande.

Meu amor, de tanta dor e incertezas, eu lhe garanto: um dia desses me encontrarás apodrecendo e largada na rua que nem uma louca de tanta sujeira.

Não irei proteger mais o meu coração dessa dor, entrego me ao precipício que me ofereceste e peço aos céus que no mínimo sejam gentis demais para receber-me, pois um dia jurei amor a quem me entreguei e hoje, igual a um touro me transformei, nervosa, frígida, incapaz de viver e com os chifres mais lindos que o universo poderia oferecer.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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