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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

De frente ou de costas?

Ilustração em guache sobre desenho quadriculado Sashiko em caneta nanquim por Ana Helena Reis

Numa manhã gostosa, depois de uma longa caminhada, cansados e suados correram para o chuveiro

Existem muitas crendices associadas à forma como nos posicionamos em algumas situações – de frente ou de costas. Por exemplo:

Ao sair de um cemitério, vire-se de frente para dentro e de um passo de costas em direção à rua, sempre com os olhos abertos.

Em um terreiro de Umbanda, saia de frente para o Congá, seguindo a regra de “não dar as costas ao que é sagrado”.

Quando se trata, porém, de coisas mais prosaicas e que, a princípio, não envolvem uma questão de sorte ou azar, a decisão de se colocar de frente ou de costas às vezes envolve uma questão de gênero.

Sim, por incrível que possa parecer, de acordo com pesquisas, na hora do banho homens normalmente se posicionam de frente para o chuveiro e mulheres se colocam de costas. Aí vem a pergunta de um milhão de duchas: por que motivo?

Fácil. Aline e Gustavo, dignos representantes de um casal heterossexual, podem responder sem nem se enxugar:

Numa manhã gostosa, depois de uma longa caminhada, cansados e suados correram para o chuveiro.

– Quem vai primeiro? Perguntou ela.

– Entramos juntos Lelê, mas sem uma previazinha, tá? temos que sair direto para o almoço que marcamos; já estamos atrasados.

Gustavo temperou a água, Aline entrou e já surtou.

– Nossa! Amor, tá gelada demais! Tá certo que estamos com o corpo quente, mas aquece um pouco aí, assim não dá.

– Pô meu, aguenta um pouco, banho rapidinho.

Tremelicando, Aline se posicionou de costas para a ducha, ensaboou rapidinho o cabelo com aquele shampoo com os ativos da niacinamida, caríssimo, que economiza cada gota. Sentindo o efeito milagroso desse bálsamo, tomou coragem e jogou a cabeça para trás em direção à ducha para tirar a espuma.

Nesse instante Gustavo, um metro e noventa, de frente para a ducha, levantou os braços e ensaboou o sovaco vigorosamente com seu sabonete de enxofre. Uma ilha flutuante de ovos nevados explodiu em cima de Aline, e ela subiu o tom:

– Poxa cara, que inferno! Olha só o que você fez! Agora vou ter que passar de novo o shampoo! Olha o meu prejuízo! Não dava para ser menos espaçoso?

– Baby, não tenho culpa! Se você estivesse de frente para a ducha, como qualquer ser normal, o cabelo teria escapado dessa.

– Normal? É normal ficar tomando esse jato d’água nos olhos, direto? E aí, na hora que a gente tem que abaixar para lavar o pé, o cabelo vem todo na cara, embola de um tanto que quando a gente se levanta parece um Bobtail ensopado; sabe qual é esse cão, né?

– Sei, e sabe do que mais? Meus ovos nevados desmelinguiram. Vamos saindo, me passa a toalha.

– Tá aí fora, pendurada. E saia de costas, ouviu?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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