– Mãe, por que as mulheres se odeiam?
A pergunta veio direta, quase desconcertante. Quem perguntou foi meu filho, de 21 anos. O verbo escolhido — odiar — me atravessou. Respondi de imediato:
– Mulheres não se odeiam. Eu não odeio mulheres. Eu amo mulheres.
Mas ele continuou:
– Não é isso que eu vejo. Elas não se ajudam. Elas concorrem entre si.
Essa conversa ficou reverberando em mim. Não apenas pela força da pergunta, mas porque ela expôs algo que muitas de nós evitamos encarar com profundidade: a competitividade entre mulheres é cotidiana, aprendida e ainda muito presente, mesmo em tempos de tantos discursos sobre sororidade, equidade e inclusão.
Não é ódio. É medo, imaturidade emocional e uma construção social
Não, mulheres não se odeiam. O que muitas vezes aparece como rivalidade é, na verdade, medo. Medo de perder espaço. Medo de não ser suficiente. Medo de não ser reconhecida. Medo de ser comparada. Medo de ficar para trás.
Durante muito tempo, fomos ensinadas que ser escolhidaera mais importante do que ser justa, mais importante do que comemorar a vitória da outra, mais importante do que reconhecer o mérito alheio. Esse aprendizado não nasce na mulher. Ele é socialmente construído.
Foi reforçado por uma lógica de escassez — de oportunidades, de reconhecimento, de validação — que colocou mulheres umas contra as outras, muitas vezes de forma naturalizada.

Quando a exclusão vem disfarçada de discurso inspirador
Recentemente, vi um convite para um encontro feminino com a frase: “Esse encontro não é para você que já chegou lá. É para quem quer chegar”.
À primeira vista, parece motivador. Na prática, é excludente. Cria divisões artificiais num momento em que nunca se falou tanto de troca, diversidade, equidade e combate ao etarismo.
Separar mulheres por estágios, conquistas ou percepções de sucesso empobrece o diálogo. A troca acontece quando histórias diferentes se encontram, quando experiências são compartilhadas, quando há respeito pelo caminho de cada uma.
A rivalidade que aparece nos detalhes
A competitividade feminina raramente se apresenta de forma direta. Ela aparece:
- na mulher que admira o trabalho da outra, mas não compartilha
- no elogio que vem acompanhado de comparação
- no silêncio onde poderia haver apoio
- no julgamento disfarçado de opinião
- no incômodo quando a outra cresce ou se destaca
Não se trata de opinião ou posicionamento. Trata-se de empatia entre mulheres — ou da dificuldade de exercê-la. Trata-se de reconhecer que o crescimento da outra não diminui o seu. Ao contrário: quando uma mulher abre caminhos, ela amplia possibilidades para muitas outras. Isso está registrado na história. Ainda assim, muitas não conseguem aproveitar esse caminho porque ficam presas ao sofrimento pelo que a outra conquistou.

Ambientes informais e ambientes de trabalho: o mesmo padrão, consequências diferentes
Esse comportamento aparece em grupos sociais, redes de relacionamento e projetos coletivos. Mas ele também se manifesta — e com força — nos ambientes de trabalho.
Frequentemente, ouço relatos de clientes líderes e lideradas que passam por situações difíceis de escutar. Recentemente, uma delas me disse: minha líder parece ter prazer quando eu tenho alguma dificuldade.
Essa frase revela muito. Revela relações atravessadas por disputa, comparação e falta de maturidade emocional. Em contextos profissionais, a concorrência entre mulheres pode chegar a níveis constrangedores e explícitos: desqualificação, isolamento, exposição, disputas veladas de poder.
Quando isso acontece, o impacto não é apenas relacional. Afeta resultados, clima organizacional, segurança psicológica e saúde emocional.
A dificuldade de reconhecer e aprender com a outra
Talvez uma das cenas mais raras — e mais difíceis — de se ouvir seja uma mulher dizendo para outra, com sinceridade: “Que bacana o que você construiu. Qual foi o caminho que você seguiu para chegar aí?”
O mais comum é vermos mulheres buscando respostas apenas em palestrantes renomadas, figuras midiáticas ou fórmulas prontas, muitas vezes tentando ser o que a outra é, e não aprofundar quem elas próprias são.
Buscar referências é importante. Autoconhecimento e desenvolvimento são fundamentais. Mas, muitas vezes, há uma mentora, uma parceira, uma mulher ao lado, com uma trajetória real, possível, próxima — e ainda assim não queremos ouvir. Porque ouvir é reconhecer mérito. E reconhecer mérito, para algumas, ainda dói.

Violências que passam despercebidas
Falamos — e precisamos falar — sobre feminicídio, sobre o medo real de ser mulher. Mas também é preciso falar das violências entre mulheres que passam despercebidas: a omissão, a indiferença, o julgamento constante, a falta de apoio.
São violências que marcam, prejudicam relacionamentos, comprometem trajetórias e impactam o sucesso coletivo. Muitas vezes, vêm acompanhadas de um pensamento que revela a ausência de empatia: ainda bem que não foi comigo.
O que ainda não curamos
Talvez a pergunta não seja “por que as mulheres competem?”, mas “o que ainda não curamos em nós?”
A transformação desse cenário passa, necessariamente, por:
- autoconhecimento
- fortalecimento da autoestima
- desenvolvimento da autoconfiança
- maturidade emocional
- protagonismo
Quando uma mulher honra a própria história, ela passa a respeitar a história da outra. O protagonismo verdadeiro não nasce da comparação, mas da identidade.
Este é um convite para que cada mulher desenvolva seu protagonismo com base em quem é — e não no que a outra conquistou ou representa. Porque todas podemos amadurecer. Todas podemos florescer. Em qualquer fase da vida.
E, se você quiser conversar sobre isso, estou à disposição. Independentemente de como você se vê hoje, o desenvolvimento emocional é um campo vivo, possível e transformador.




























