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Mãe solo e atípica, terapeuta integrativa e escritora. Acredita no poder do acolhimento e das histórias para transformar a maternidade em uma jornada mais leve.

Quando o convite que não vem dói mais em quem ama

Design Dolce sob imagem feita com ferramentas de inteligência artificial em Canva

Ela perguntou: 'E eu, mãe?' E eu não tive resposta. Só a certeza de que a luta pela inclusão não pode parar

21 de março, Dia Internacional da Síndrome de Down. Uma data para celebrar conquistas, lembrar direitos e, principalmente, olhar para o que ainda precisa mudar.

Este ano, muitas instituições ligadas à causa levantaram uma campanha que me atravessou de um jeito que eu não esperava: “Xô Solidão”. O tema é simples, mas profundo: a solidão social que jovens com síndrome de Down enfrentam. O não ser chamado para festas. O ficar de fora dos grupos de trabalho na escola. O silêncio das notificações que não chegam com um convite de amizade.

Eu li alguns relatos, vi vídeos, e pensei: “Ah, com a Sara não é assim.”

Até o último final de semana.

Imagem de freepik

Rafael foi convidado para um aniversário no shopping com outros cinco amigos. Sara, ao saber, perguntou com aquele olhar que mistura esperança e inocência:

— E eu, mãe?

Sugeri que ela chamasse alguma amiga para vir brincar aqui em casa. Tentou algumas. Silêncio e negativas…

E ali, diante da minha filha, eu senti uma dor que não cabia em mim. Não era só minha. Era a dela também. Uma tristeza silenciosa que ela tentou disfarçar, mas que eu conheço bem demais. Resolvi momentaneamente dizendo que poderíamos ir ao Shopping também para passear e brincar, e ela acabou se divertindo.

Mas aqueles “nãos” ecoaram em minha mente. Não é sobre falta de amor. É sobre falta de lugar.

Com a adolescência chegando, Sara fará 12 anos em alguns meses, as coisas mudam. A inocência das brincadeiras de criança dá lugar à seletividade típica dessa fase. E quem foge do padrão, quem não se encaixa naquela bolha de interesses e comportamentos, vai ficando pelo caminho. As amizades somem. Os convites rareiam. O silêncio aumenta.

E eu, como mãe, me vi diante de uma verdade dura: não posso obrigar ninguém a querer estar com ela. Não posso controlar o coração dos outros. Não posso forçar a inclusão onde ela não acontece naturalmente.

Dói. Dói muito.

Mas também me movimenta.

Imagem de freepik

Descobri que existe uma balada aqui em São Paulo chamada Loop Down que vai para sua segunda edição. Um espaço pensado para jovens como ela, onde a diversão não tem padrão, onde o acolhimento é a regra, não a exceção.

Me animei. Participei de uma live e decidi: vou levá-la.

Porque se o mundo ainda não aprendeu a incluir, eu vou atrás dos lugares onde a inclusão já é real. E vou, junto com ela, construindo pontes para que a solidão não seja sua companheira, acredito que também encontre essa ponte com outras mães que vivem o mesmo que eu.

A campanha “Xô Solidão” não poderia vir em melhor hora. Ela me lembrou que esse não é um problema só meu, só da Sara. É de muitas famílias. É uma questão social que precisa ser falada, escancarada, transformada.

Então, se você leu até aqui, fica o pedido: olhe ao redor. Tem algum jovem com Síndrome de Down na escola do seu filho? Na sua rua? Na sua família? Pergunte-se: ele tem sido incluído? Tem sido chamado? Tem feito parte?

DiImagem de freepik

Inclusão não é só rampa e lei. Inclusão é convite. É presença. É afeto.

Que possamos ser uma geração que aprende, de verdade, a dizer xô solidão, não apenas no discurso, mas na prática, no dia a dia, no simples ato de estender a mão e dizer: “Vem com a gente.”

Aos adolescentes típicos fica a dica: jovens com Síndrome de Down podem ser excelentes amigos, divertidos e verdadeiros, experimente, você ganhará um presente!

Porque ninguém deveria crescer achando que o seu lugar é à margem.

Nem a Sara. Nem ninguém.

Design Dolce sob imagem feita com ferramentas de inteligência artificial em Canva

 

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Gisele Ribeiro é autora do livro ”Diário de uma mãe nada especial” obra em que desmistifica a maternidade idealizada e compartilha sua transformação pessoal e profissional. É terapeuta integrativa e criadora da mentoria Conversa Materna, um espaço de acolhimento para que cada mãe possa recriar sua própria história.

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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