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O fim da escala 6×1 apresenta avanço social ou é um novo motor do custo Brasil?

Entre qualidade de vida, aumento de custos e avanço da pejotização, o debate expõe uma transformação silenciosa no mercado de trabalho brasileiro.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Qual será o custo econômico de tentar melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores em um país que já possui uma das estruturas mais caras e complexas para contratação formal?

Por Arnaldo Reis Figueiredo

Durante décadas, a escala 6×1 foi tratada quase como uma regra silenciosa do mercado brasileiro. Trabalhar seis dias para descansar um virou rotina principalmente em supermercados, restaurantes, farmácias, hotelaria, segurança, serviços operacionais e pequenos comércios que mantêm as cidades funcionando diariamente. Agora, o tema voltou ao centro do debate nacional e não apenas como pauta trabalhista.

O que está em discussão hoje é algo muito maior: qual será o custo econômico de tentar melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores em um país que já possui uma das estruturas mais caras e complexas para contratação formal?

A proposta de redução da jornada e o possível fim gradual da escala 6×1 desperta apoio popular quase imediato. E é compreensível. Poucos discordam de que mais tempo para descanso, família e saúde mental seja algo socialmente desejável. Em um mundo onde burnout virou palavra cotidiana, trabalhar menos soa como evolução natural.

Mas existe uma diferença importante entre uma ideia socialmente correta e uma implementação economicamente sustentável.

Enquanto países desenvolvidos discutem produtividade apoiados em automação, infraestrutura eficiente e menor insegurança jurídica, o Brasil ainda opera sob o chamado “Custo Brasil”: alta carga tributária, burocracia, baixa produtividade e elevado custo de contratação formal.

E é justamente aí que o debate começa a ficar mais complexo.

Grande parte da economia brasileira depende de operações presenciais e funcionamento contínuo. Mercados de bairro, restaurantes, farmácias, portaria e pequenos negócios em geral não conseguem simplesmente reduzir horários sem impacto direto na operação. Se o estabelecimento funciona sete dias por semana, alguém precisará continuar ocupando aquele posto.

Na prática, reduzir jornada quase sempre significa contratar mais pessoas.

O desafio é que contratar no Brasil custa caro, especialmente no regime CLT. Em muitos casos, um funcionário pode representar o dobro do valor do salário líquido pago ao trabalhador quando se somam encargos, férias, FGTS, INSS, 13º salário e demais obrigações trabalhistas.

Enquanto isso, o modelo PJ cresce em ritmo acelerado.

A chamada “pejotização” deixou de ser fenômeno restrito a executivos e profissionais liberais. Ela avançou para áreas como tecnologia, comunicação, saúde, consultoria e começa a atingir até funções operacionais. O motivo é simples: a diferença tributária entre contratar um funcionário formal e um prestador de serviço se tornou gigantesca.

E existe um detalhe pouco discutido fora dos bastidores empresariais: o governo iniciou a retomada gradual da tributação sobre a folha de pagamento. Antes, muitos setores recolhiam contribuição previdenciária com base no faturamento das empresas. Ou seja, o imposto crescia conforme a empresa vendia mais.

Com a reoneração da folha, essa lógica começou a mudar. O peso tributário deixa de estar concentrado sobre o faturamento e volta gradualmente para a folha de pagamento e o número de funcionários da empresa. Na prática, quanto maior o número de empregados e salários pagos, maior passa a ser o custo tributário da operação.

Isso cria um efeito econômico importante: vender mais já não aumenta proporcionalmente os impostos como antes, mas contratar mais funcionários formais sim.

E é justamente nesse ponto que o debate sobre o fim da escala 6×1 se conecta diretamente ao avanço da pejotização. Quanto maior o custo sobre a folha salarial, maior tende a ser o incentivo para empresas reduzirem vínculos CLT e buscarem modelos mais flexíveis de contratação.

Entre contas, impostos e folha salarial, o pequeno empresário tenta manter o negócio funcionando.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Entre p descanso e a sobrevivência operacional

É justamente nesse ponto que o debate sobre o fim da escala 6×1 deixa de ser apenas trabalhista e passa a ser estrutural.

Grandes empresas ainda conseguem absorver parte do impacto com automação, reorganização operacional e ganho de escala. O pequeno empresário, não.

Mais de 80% dos empregos no Brasil estão ligados a pequenos e médios negócios, justamente os mais pressionados pelo aumento do custo operacional. São empresas que já convivem com margens apertadas, alta carga tributária, energia cara e consumo instável. Para muitas delas, aumentar despesas não significa reduzir lucro, mas colocar a própria sobrevivência em risco.

E quando pequenos negócios fecham ou deixam de competir, o mercado tende a se concentrar ainda mais nas grandes empresas, que possuem maior capacidade financeira e operacional para absorver mudanças, automatizar processos e diluir custos.

Por isso, parte do setor produtivo reage com preocupação. Não porque exista oposição direta à melhoria das condições de trabalho, mas porque muitos empresários enxergam um desequilíbrio entre intenção social e realidade econômica. O receio é que a conta final acabe sendo redistribuída da forma mais comum no Brasil: aumento de preços, terceirização, rotatividade e avanço ainda maior dos contratos PJ.

Esse efeito já pode ser percebido em diversos setores.

Basta observar empresas terceirizadas de portaria, limpeza e segurança em condomínios comerciais e residenciais. A pressão por redução de custos existe de todos os lados: clientes querendo pagar menos, empresas tentando sobreviver e governo aumentando arrecadação sobre folha. No meio disso, o trabalhador frequentemente sente o impacto por meio de salários achatados, perda de estabilidade e alta rotatividade. Em muitos casos, profissionais acabam desligados de uma empresa e recontratados por outra para exercer praticamente a mesma função, porém com salários menores e condições mais enxutas.

Ao mesmo tempo, defensores da redução da jornada lembram que previsões negativas também apareceram em mudanças anteriores da legislação trabalhista e nem todas se confirmaram. Experiências internacionais mostram que trabalhadores menos exaustos tendem a produzir melhor, faltar menos e permanecer mais tempo nas empresas.

Mas produtividade não surge apenas de mudanças na legislação.

Ela depende de educação, tecnologia, infraestrutura, gestão eficiente, ambiente econômico saudável e principalmente de reformas amplas, tanto tributárias quanto trabalhistas. Sem isso, o risco é ampliar ainda mais o peso do chamado “Custo Brasil” justamente sobre quem produz, emprega e consome.

Talvez esteja aí a principal fragilidade da discussão brasileira: tentar modernizar relações de trabalho sem enfrentar simultaneamente os entraves econômicos que recaem sobre quem produz e contrata.

Inclusive, já existe um movimento silencioso de empresas que começam a transferir parte de suas operações para países vizinhos, buscando estruturas tributárias e operacionais mais competitivas para atender o próprio mercado brasileiro com menor custo.

No fim, a grande pergunta talvez não seja se o fim da escala 6×1 é bom ou ruim.

Socialmente, o desejo por mais equilíbrio entre vida e trabalho parece inevitável e legítimo. A questão real é outra: o Brasil conseguirá fazer essa transição sem ampliar ainda mais a informalidade, a pejotização e o custo da contratação formal?

Porque, no fim, o mercado sempre encontra formas de se adaptar.

A dúvida é quem ficará responsável por pagar essa adaptação.

E, historicamente, no Brasil, essa conta raramente desaparece. Ela apenas muda de lugar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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