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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Véu, grinalda & palavrões

Nem toda mulher que veste um véu está preparada para honrá-lo

Hoje, querido leitor e querida leitora, vou provocar um pouco o mundo feminino e falar de um tema que pouco se discute ou comenta.

Vamos olhar para aquele homem que tenha tido uma boa ou má educação durante a sua infância, mas que conseguiu criar em si um homem íntegro, com valores, trabalhador, com uma posição respeitada socialmente, com os seus defeitos obviamente, mas ainda assim difíceis de ultrapassar as suas qualidades.

Tal homem faz uma escolha, uma das mais importantes da vida humana: casar-se com a Maria. Sendo esta última, até prova em contrário, uma pessoa dócil. Mesmo que durante o namoro tenha elevado a voz ocasionalmente, ainda assim o homem acredita que Maria será a escolha perfeita para transformar a sua casa em lar, constituir família e construir uma vida.

Após o “sim”, o terror das 22 horas inicia.

A dócil Maria transforma-se numa respondona. Lavar e arrumar as roupas dele passam a ser um martírio. Mesmo tendo máquina de lavar e alguém para estender a roupa, ainda assim os afazeres dela em torno da casa já não são mais prazerosos. E tu, homem, por acreditares que talvez precises de dar mais, banham-na de diamantes e dólares, e ainda assim Maria não se dobra.

Maria saiu do casulo e jamais, diz ela, será rebaixada por homem algum.

Imagem de teksomolika no Magnific

Tal homem és tu, leitor, que pagas as contas, que tudo fazes para elevar a estrutura do lar, manter os princípios e os projetos que juntos desenharam. Ainda assim, Maria não cede. Maria hoje já te vê como um fantoche, um brinquedo que ela usa e abusa.

E tu, homem, por acreditares que tudo deves fazer pela família, manténs-te lá. Nada dizes, com receio de seres a piada da semana. Ou, se dizes, faze-o às escondidas, ocultando que até os deveres entre quatro paredes já não são possíveis.

E olhando para a história assim, de forma crua, o que os outros dirão?

“A Maria? Ah, essa não vale nada”. “Deixa-lhe”. “Tu és um santo”.

Amigo, vamos organizar as ideias.

Vivemos numa era em que aprendemos a identificar os erros masculinos com uma precisão cirúrgica. E ainda bem. Mas, curiosamente, quando a mulher é a responsável pelo caos dentro do lar, rapidamente aparecem especialistas para explicar os traumas dela, as dores dela, os problemas dela e as razões dela. Tudo serve para justificar. Tudo serve para aliviar a responsabilidade. Menos admitir o óbvio: existem mulheres que escolhem ser péssimas esposas.

Ao contrário do que sempre foi cantado, acredita: para que um lar seja um lar, a sua construção é da pura e exclusiva responsabilidade do marido. A mulher chega para ajudar a manter, gerir e fortalecer esse projeto.

Se desde o início não ficou claro que este projeto tem um líder, o que achas que o teu braço direito fará?

Se dentro desse projeto de lar existe um líder que vê o seu projeto a ser desrespeitado, espezinhado como se de uma barata intrusa se tratasse, e nada faz, o que achas que o teu braço direito fará?

Se o mesmo líder, a cada parede que cai do seu lar, vai colocando cola em tudo e ainda bonifica Maria como forma de hastear a bandeira branca, achas mesmo que esse lar vai desenvolver?

Sabe, meu amigo, para além dos problemas de base, obviamente, parte da malcriação da tua Maria foi permitida por ti. Foi dado o cartão verde por ti.

Imagem de rawpixel.com no Magnific

Mas não confundamos as coisas.

Nem toda mulher que veste um véu está preparada para honrá-lo.

Nem toda mulher que entra de grinalda numa igreja entra também com a maturidade necessária para sustentar um casamento. Algumas entram apenas para celebrar o casamento; outras entram preparadas para construir um lar. E a diferença entre uma e outra costuma revelar-se quando a música acaba, os convidados vão embora e a vida real começa.

Nenhuma Maria em plena consciência de onde está e do seu papel dentro do projeto lar irá fazer e desfazer nele. Ela será a primeira a tudo fazer para garantir a estabilidade desse projeto.

A partir do momento em que uma mulher pisa nesse projeto, rasga o tão querido véu, meu amigo, das duas uma: ou ela precisa de intervenção médica por questões de burnout, depressão, loucura ou algo semelhante, ou, em palavras mais agressivas, ela está pouco se marimbando para ti. Não está nem aí.

Por mais incrível que pareça, sei, irmão, que muitos de vocês vivem isso há anos. E, sem dó nem piedade, nós, como sociedade, julgamos, agredimos verbalmente, ridicularizamos e ignoramos o sofrimento masculino porque ele simplesmente não encaixa na narrativa que preferimos ouvir.

Repito: se a mulher desligou a ficha, cabe a si conectá-la ou simplesmente retirá-la da tomada.

A falta de um berço equilibrado não faz de uma mulher um monstro, nem a condena a ser um. Mas um caráter quebrado, isso sim, causa arranhões sérios e profundos, muitas vezes sem qualquer possibilidade de reparação.

Em tempo: não estou aqui a promover a separação ou a falta de diálogo, mas a colocar situações que você, como homem, deverá pegar e refletir: “Será que sou um esposo e marido dentro do meu lar ou apenas um provedor e progenitor dentro da fantasia de família de outra pessoa?”

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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