Por Arnaldo Reis Figueiredo
Há movimentos silenciosos que costumam passar longe das manchetes, mas que revelam mudanças importantes na economia. Um deles vem acontecendo há alguns anos na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Nos últimos tempos, tornou-se cada vez mais comum ouvir relatos de empresários avaliando operações no país vizinho. O assunto aparece em conversas de mercado, visitas a parques industriais, reuniões estratégicas e estudos de expansão. Nem sempre a decisão é mudar uma fábrica inteira. Muitas vezes, trata-se apenas de analisar alternativas. Ainda assim, o fato de essa discussão ter se tornado tão frequente já diz algo relevante sobre o ambiente de negócios da região.
Enquanto o debate público costuma se concentrar em arrecadação, reformas, crescimento econômico ou distribuição de renda, empresas seguem tomando decisões práticas sobre onde investir, contratar e produzir. E, para um número crescente delas, olhar para além da fronteira deixou de ser uma hipótese distante para se tornar uma opção real.
A distância percorrida é pequena. Em muitos casos, trata-se de poucas horas de viagem. Mas o significado desse movimento é muito maior do que aparenta. Desde a criação do regime de maquila (modelo paraguaio que oferece tributação simplificada e incentivos para empresas que produzem para exportação), mais de 230 empresas brasileiras passaram a instalar operações produtivas no Paraguai. Algumas transferiram parte da produção. Outras abriram novas unidades para expandir seus negócios. Muitas continuam vendendo para os mesmos consumidores brasileiros. O mercado permaneceu praticamente o mesmo. O endereço da produção, não.
Reduzir esse movimento a uma simples busca por custos menores é uma interpretação comum. Mas basta acompanhar as conversas que acontecem em reuniões estratégicas, visitas a parques industriais e análises de expansão para perceber que a discussão é mais ampla. Quando empresas de diferentes setores começam a fazer perguntas parecidas e avaliar caminhos semelhantes, o fenômeno deixa de ser um caso isolado e passa a revelar algo sobre o ambiente de negócios em que essas decisões estão sendo tomadas.
Até poucos anos atrás, a ideia de instalar uma operação produtiva fora do Brasil raramente aparecia nas prioridades de boa parte da indústria nacional. O tamanho do mercado consumidor, a força da indústria nacional, a abundância de recursos naturais e a capacidade empreendedora sempre foram diferenciais importantes. Essas qualidades continuam existindo. O que mudou foi a percepção de parte dos empresários sobre o custo e a complexidade de transformar oportunidades em investimentos concretos.
Quem conversa regularmente com empresários industriais escuta relatos parecidos. O problema raramente é um imposto específico ou uma única exigência regulatória. O que surge repetidamente é a dificuldade de planejar o longo prazo em um ambiente onde custos, regras e obrigações mudam constantemente. Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a migração de empresas. O problema está no acúmulo. Trata-se de um fenômeno construído ao longo de décadas, atravessando diferentes governos, diferentes políticas econômicas e diferentes momentos do país.
Foi nesse espaço que o Paraguai encontrou sua oportunidade. Sem o tamanho do mercado brasileiro e sem a mesma estrutura econômica, o país decidiu competir de outra forma. Ao longo dos anos, transformou simplificação tributária, energia competitiva e previsibilidade regulatória em uma estratégia nacional para atrair investimentos industriais. Em vez de disputar empresas pelo tamanho de seu mercado consumidor, passou a disputar pela facilidade de produzir.
Os resultados foram além da atração de novas fábricas. Em 2025, as exportações geradas pelo regime de maquila ultrapassaram US$ 1,2 bilhão, consolidando o modelo como um dos motores da industrialização paraguaia. Ao mesmo tempo, mais de 35 mil empregos diretos passaram a depender dessas operações. Um detalhe ajuda a compreender a dimensão desse movimento: mais de 60% das exportações das maquiladoras paraguaias têm o Brasil como destino. Em muitos casos, os consumidores continuam sendo os mesmos. O que mudou foi o local onde os produtos passaram a ser fabricados.
Em poucos anos, a estratégia começou a produzir resultados visíveis. Empresas brasileiras dos setores de confecção, calçados, autopeças, eletroeletrônicos e bens de consumo passaram a instalar operações no país vizinho. O Paraguai deixou de ser apenas um parceiro regional para se tornar uma alternativa concreta de expansão para negócios que nasceram no Brasil. E, embora seja o caso mais visível, ele não está sozinho. Uruguai, Chile, Colômbia e México também vêm atraindo empresas brasileiras por razões distintas, como estabilidade regulatória, acesso a mercados internacionais ou ambientes mais previsíveis para quem investe. Ainda assim, nenhum deles construiu uma estratégia tão direta e competitiva quanto a maquila paraguaia.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.
O problema não está na fronteira
O mais interessante nessa história é que ela revela um debate muito maior do que a simples busca por redução de custos. Quando uma empresa decide produzir fora do país, não é apenas uma linha de montagem que muda de endereço. Junto com ela seguem fornecedores, investimentos, empregos e planos de expansão que poderiam acontecer em outro lugar. Pouco a pouco, a discussão deixa de ser empresarial e passa a ser uma questão de competitividade nacional.
É justamente por isso que movimentos como esse merecem atenção. Empresas tomam decisões de investimento todos os dias. Algumas ampliam operações, outras adiam projetos e outras procuram novos mercados. Quando essas decisões começam a apontar na mesma direção, elas acabam revelando muito sobre o ambiente econômico em que estão sendo tomadas.
Boa parte do debate econômico costuma se concentrar nos resultados do crescimento. Menos atenção é dada às condições que tornam esse crescimento possível. Empresas decidem investir quando enxergam oportunidades, previsibilidade e perspectivas de retorno compatíveis com os riscos envolvidos. É nesse contexto que a migração de operações para outros países deixa de ser apenas uma notícia econômica e passa a oferecer pistas importantes sobre o ambiente de negócios de uma região.
O Paraguai não é a causa desse movimento. Tornou-se apenas o exemplo mais evidente de uma transformação que vem ocorrendo gradualmente e que expõe uma questão importante para o futuro do Brasil. Quando uma empresa brasileira conclui que é mais fácil crescer fora do país do que dentro dele, ela está emitindo um sinal sobre o ambiente econômico em que opera. Ignorar esse sinal não fará com que ele desapareça.
O Paraguai acabou se tornando o símbolo mais visível desse movimento. Mas a discussão que ele revela é brasileira. Ela fala sobre competitividade, capacidade de atração de investimentos e, principalmente, sobre as condições que um país oferece para quem decide produzir, investir e crescer. Em um mundo onde empresas podem escolher onde construir seu futuro, essa tende a ser uma das discussões econômicas mais relevantes dos próximos anos.
Mais do que entender por que o Paraguai está atraindo empresas brasileiras, a discussão passa por compreender quais condições o Brasil precisará oferecer para continuar sendo a escolha natural de quem produz, investe e gera empregos.





























