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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

O que fica fora da foto

Ilustração do que uma nuvem pode revelar – desenho feito com Apple Pen sobre uma foto por Ana Helena Reis

Em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado?

O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo.

Uma risada explode — e alguém já procura o celular.

O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade.

Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente.

A cena não passa mais direto pela gente. Antes, precisa caber na tela.

E aí acontece uma coisa curiosa: quanto mais a gente tenta guardar o momento, menos ele parece nos atravessar de verdade. O pôr do sol vira registro. O sorriso vira conteúdo. O encontro vira material.

A gente não olha — enquadra.

Não presencia — captura.

Não participa — publica.

E, nesse movimento quase automático, alguma coisa se perde.

Talvez a distração do vento, o calor do instante, o detalhe que não caberia na foto, mas que era justamente o que fazia tudo valer a pena.

Há sempre um ajuste a fazer: o ângulo, a luz, a pose, a versão de nós mesmos que vai aparecer depois. Porque, no fim, a imagem não é só do momento — é também sobre quem a gente parece ser dentro dele.

E assim, aos poucos, vamos nos afastando.

Sem sair do lugar.

Viramos uma espécie de intermediários da própria experiência. Nem totalmente dentro, nem completamente fora. Apenas ocupados em garantir que tudo fique… registrável.

E curioso: pelas lentes do celular, quase sempre saímos bem.

Talvez melhor do que estávamos.

Mas fica a dúvida — em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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