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O que ainda define a experiência humana?

Estamos perdendo memória à medida em que dependemos cada vez mais da tecnologia e delegamos a ela até o nosso direito de pensar?

Por Maria Félix Fontele

Nada é tão significativo para os indivíduos do que a memória. É por meio dela que relembramos momentos especiais e os mais dolorosos. Na vivência diária, entre erros e acertos, seguimos, aos poucos, formando uma identidade, um arquivo pessoal individualizado e só transferível por meio do repasse da palavra, seja ela escrita ou falada.

O historiador e escritor Amadou Hampâté Bâ (1901/1991), nascido em Mali, um dos grandes defensores da tradição oral africana, dizia que “na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima”, dada a importância da oralidade para a preservação da memória daquele continente.

E por falar em queima, logo vem à lembrança o filme Fahrenheit 451. Dirigido por François Truffaut e lançado em 1966, adaptado do romance distópico do escritor Ray Bradbury, o longa-metragem mostra uma sociedade vivendo sob o comando de um governo totalitário e opressor em que os livros são proibidos e queimados pelos bombeiros, enquanto a população se rende a uma tecnologia alienante e padronizada. A solução arranjada pelos rebeldes foi que cada um decorasse um livro inteiro para que depois fosse repassado às futuras gerações.

Imagem de magnific

Aqui, a pergunta a ser feita é: estamos perdendo memória à medida em que dependemos cada vez mais da tecnologia e delegamos a ela até o nosso direito de pensar?

A resposta é sim. Estudo recente do MIT Media Lab (laboratório de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts) revela que a dependência por respostas prontas, obtidas mediante o constate uso da Inteligência Artificial, afeta a memória e compromete a atividade cerebral e a criatividade, e ainda facilita a criação de memórias falsas por meio de conteúdos que parecem realistas. “O descarregamento cognitivo pode atrofiar o cérebro, dificultar o aprendizado, enquanto deepfakes alteram a percepção da realidade”, avisa o estudo.

Pesquisas recentes mostram que o Quociente de Inteligência (QI) tem caído nas gerações mais jovens e que, pela primeira vez na história, filhos têm QI inferior aos dos pais. E um dos fatores atribuídos a essa baixa é o uso excessivo de telas.

O neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, lançou, em 2021, o livro A fábrica de cretinos digitais, cada vez mais lido nos dias de hoje, em que ele aponta, por meio de dados irrefutáveis, que “os dispositivos digitais estão afetando seriamente – e para o mal – o desenvolvimento neural de crianças e jovens”. Segundo ele, em entrevista à BBC News, “as evidências são palpáveis, tanto que os testes de QI já apontam que as novas gerações são menos inteligentes”.

Imagem de magnific

Enfim, se aIA já pode alterar lembranças e encolher a inteligência, o que ainda define a experiência humana?  Seriam as nossas emoções e memórias, a sensibilidade, as capacidades cognitivas e criativas?

E se um dia a IA deixar de ser apenas matemática avançada e passar a ter consciência ou autoconsciência? Seria ela nós no futuro? Pensemos nesse assunto.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Félix Fontele é jornalista, escritora e autora de “Labirintos do caos”, livro de contos de ficção especulativa que reflete sobre as relações entre memória e esquecimento no Brasil.

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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