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Por que tantas mulheres já não sabem o que querem para si

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Entre trabalho, família e a necessidade constante de corresponder às expectativas, muitas mulheres perderam a conexão com os próprios desejos

Psicóloga explica por que esse movimento tem raízes emocionais profundas e como o acompanhamento terapêutico pode ajudar a reconstruir essa relação consigo mesma

Ela sabe qual é a comida preferida do marido. Lembra da consulta médica dos filhos. Organiza a agenda da equipe no trabalho. Resolve conflitos na família. Ajuda os pais quando precisam. Dá conta das demandas da casa, responde mensagens, administra compromissos e, quase sempre, ainda encontra tempo para acolher alguém que esteja passando por um momento difícil.

Mas, quando alguém faz uma pergunta aparentemente simples, muitas vezes ela silencia: “O que você quer para você?”

Na clínica, essa cena tem se repetido com frequência. Mulheres competentes, produtivas e reconhecidas profissionalmente encontram dificuldade para responder perguntas relacionadas aos próprios desejos. Não porque lhes faltem sonhos ou capacidade de decidir, mas porque passaram tantos anos respondendo às necessidades das pessoas ao redor que deixaram de desenvolver intimidade com as próprias vontades.

Esse movimento não acontece de um dia para o outro. Ele é resultado de uma construção que envolve fatores culturais, familiares, emocionais e sociais.

Nas últimas décadas, as mulheres ampliaram significativamente sua participação no mercado de trabalho, conquistaram espaço em posições de liderança e assumiram protagonismo financeiro dentro das famílias. No entanto, essa transformação não foi acompanhada por uma redistribuição proporcional das responsabilidades domésticas e do autocuidado.

Imagem de magnific

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam cerca de 11,7 horas. A diferença permanece mesmo entre mulheres com jornada formal de trabalho.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também mostram que, em praticamente todos os países, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelo chamado trabalho invisível: lembrar compromissos, antecipar necessidades da família, organizar a rotina da casa, administrar a vida emocional dos filhos e manter o funcionamento cotidiano.

É a chamada carga mental.

Ela não aparece na agenda, mas ocupa a mente o tempo todo.

Para a psicóloga Laura Zambotto, esse cenário produz um efeito que raramente recebe atenção: “Na clínica, eu percebo que muitas mulheres sabem exatamente o que o marido espera, o que os filhos precisam, o que a empresa exige e o que a família espera delas. Mas, quando a pergunta é sobre o que elas realmente desejam, a resposta costuma demorar. Não porque elas não tenham desejos, mas porque passaram muitos anos deixando essa parte de si em segundo plano“.

Essa desconexão, segundo Laura, costuma ser interpretada como falta de tempo, quando na verdade muitas vezes está relacionada à forma como essas mulheres aprenderam a ocupar seu lugar no mundo: “Existe uma diferença importante entre fazer escolhas e viver apenas respondendo às demandas da vida. Muitas mulheres foram educadas para perceber primeiro a necessidade do outro. Com o tempo, essa habilidade se fortalece tanto que elas deixam de perceber a própria“.

O desejo também é construído

Na psicologia, reconhecer os próprios desejos não é entendido como um ato de egoísmo, mas como parte do desenvolvimento da identidade.

Saber do que se gosta, quais limites fazem sentido, quais relações fortalecem ou esgotam e quais projetos realmente despertam entusiasmo são elementos fundamentais para uma vida emocionalmente saudável.

O problema é que esse aprendizado nem sempre acontece.

Laura explica que, sob uma perspectiva psicológica e também sistêmica, muitas mulheres cresceram ocupando lugares de responsabilidade emocional dentro da família: “Algumas ouviram desde pequenas que eram maduras para a idade, que precisavam ajudar a mãe, cuidar dos irmãos, evitar conflitos ou dar o exemplo. Outras aprenderam que seriam reconhecidas quando correspondessem às expectativas. São experiências diferentes, mas que têm algo em comum: a necessidade do outro passa a ocupar mais espaço do que a própria vontade“.

Com o passar dos anos, esse funcionamento deixa de parecer um comportamento aprendido e passa a ser confundido com personalidade.

A mulher passa a acreditar que sempre foi assim.

Quando a vida pede uma resposta e ela não vem. Essa dificuldade costuma aparecer em momentos de transição: uma promoção no trabalho; o convite para empreender; o fim de um casamento; os filhos que saem de casa; a chegada da menopausa; uma mudança de cidade.

Ou até perguntas aparentemente simples, como escolher um curso, planejar uma viagem ou decidir como gostaria de passar um fim de semana.

É justamente nesses momentos que muitas mulheres percebem que sabem organizar a vida de todos, mas não conseguem responder o que faria sentido para elas.

Imagem de magnific

Caso Mariana

Mariana, 45 anos, executiva do setor financeiro, procurou terapia após receber uma proposta para assumir uma diretoria em outra cidade.

A oportunidade representava um avanço importante na carreira, mas ela não conseguia decidir: “Passei semanas perguntando para todo mundo o que achavam. Meu marido, meus filhos, minha mãe, colegas de trabalho. Até que minha terapeuta perguntou uma coisa muito simples: ‘E você, o que quer?’“.

Ela conta que chorou. “Percebi que fazia anos que eu não tomava uma decisão pensando em mim. Eu sabia exatamente o impacto daquela mudança na vida de todo mundo, mas não fazia ideia do que eu realmente desejava“.

Durante o acompanhamento terapêutico, começou a identificar um padrão antigo de buscar aprovação antes de qualquer decisão importante. Com o tempo, passou a reconhecer seus próprios critérios e a construir escolhas mais alinhadas com sua história.

Caso Juliana

Outro caso marcante na clínica foi o de Juliana, executiva de uma empresa do setor de seguros. Dividida entre as demandas do trabalho, os filhos, o relacionamento e a vida pessoal, ela contou que já não sabia nem qual era o sabor de pizza de que mais gostava: “Sempre que perguntavam o que eu queria comer, minha resposta era a mesma: ‘Por mim, qualquer uma. Eu como a que vocês escolherem’“.

Ao ouvir a si mesma dizer isso durante uma sessão, percebeu que havia perdido a conexão com os próprios desejos. Já não sabia mais quais eram seus sonhos, suas vontades ou o que realmente lhe dava prazer. Aos poucos, entendeu que, ao longo dos anos, foi deixando de ocupar um lugar na própria vida sem sequer perceber essa desconexão.

Ao longo do processo terapêutico, Juliana passou a compreender que estabelecer limites, expressar preferências e perseguir seus próprios sonhos não a tornaria menos amada. Pelo contrário, redescobrir quem era permitiu que construísse uma vida mais coerente com seus desejos e valores.

Não é falta de personalidade. É excesso de adaptação.

Laura explica que muitas mulheres confundem adaptação com maturidade: “Adaptar-se é importante. O problema é quando a adaptação se torna permanente e a mulher passa a viver apenas em função do que esperam dela“.

Segundo a psicóloga, isso pode gerar consequências importantes para a saúde mental: “A pessoa deixa de reconhecer seus limites, sente culpa quando prioriza a si mesma, perde o prazer nas atividades que antes gostava e passa a viver muito mais no piloto automático“.

Essa desconexão também aparece em estudos científicos.

Uma pesquisa publicada pela revista Emotion, da American Psychological Association, mostra que pessoas com menor clareza sobre os próprios estados emocionais apresentam maiores índices de ansiedade, estresse e dificuldades na tomada de decisão. Já estudos sobre autoconceito indicam que conhecer os próprios valores e objetivos está associado a maior bem-estar psicológico e menor sofrimento emocional.

O papel da terapia nesse processo

Para Laura, recuperar a capacidade de reconhecer os próprios desejos não significa abandonar responsabilidades ou deixar de cuidar das pessoas importantes: “O objetivo não é colocar a mulher no centro de tudo. É ajudá-la a voltar a ocupar um lugar dentro da própria vida“.

Ela explica que o acompanhamento terapêutico oferece um espaço onde essa reconstrução pode acontecer com segurança: “Muitas vezes, a paciente chega acreditando que precisa apenas aprender a dizer ‘não’. Mas, antes disso, ela precisa descobrir ao que gostaria de dizer ‘sim’“.

Sob uma abordagem integrativa, esse processo envolve compreender a história emocional da pessoa, observar padrões familiares, identificar crenças construídas ao longo da vida e fortalecer recursos para que ela possa fazer escolhas mais conscientes: “A terapia não entrega respostas prontas. Ela ajuda a mulher a construir intimidade consigo mesma e resgatar a sua identidade. Quando isso acontece, as decisões deixam de ser apenas uma tentativa de corresponder às expectativas externas e passam a refletir aquilo que realmente faz sentido para sua história“.

Para Laura, talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da vida adulta: “Depois de tantos anos cuidando da vida de todo mundo, muitas mulheres descobrem que nunca aprenderam a cuidar da própria vontade. A boa notícia é que essa conexão pode ser reconstruída. E esse caminho começa quando elas se permitem, sem culpa, voltar a escutar a si mesmas“.

Laura Zambotto, Psicóloga, especialista em saúde emocional feminina desde 2012 e criadora do Projeto Uma Nova Mulher

@laurazambottoterapias

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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