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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

A praça das Agulhas Silenciosas

Ilustração em aquarela e lápis aquarelado por Ana Helena Reis

A praça nunca foi tão silenciosa; nem tão perigosa

1. O Observador

Da sacada do sobrado em frente à praça, meu posto de observação favorito, assisto aos rituais diários que ali se repetem com precisão quase matemática. Entre fornadas de tortas para entrega — meu trabalho enfadonho —, distraio-me inventando histórias para os visitantes anônimos do lugar. Mas nada me preparou para o enredo que estava prestes a se desenrolar diante dos meus olhos.

Victor é o primeiro a chegar. Meia-idade, roupas gastas, semblante sempre apreensivo. Um jornal debaixo do braço, que parece carregar com a mesma seriedade de quem segura um relatório confidencial. Senta-se sempre no mesmo banco, como se tivesse reservado pelo celular. Começa pela seção de classificados. Circula alguns anúncios com caneta vermelha, outros em amarelo. Quinze minutos depois, vai embora, deixando o jornal ali, aparentemente sem qualquer apego.

2. A Professora de Bordado

Às nove em ponto, ela chega. Meia-idade também, luto visível na roupa preta e no rosto sereno. Duas alianças no dedo anelar denunciam o passado de esposa e o presente de viúva. Para mim, é Natália. Carrega uma bolsa com material de artesanato, um guarda-chuva e um chapéu. Vai até a mesa de concreto com bancos ao redor e começa a preparar sua aula. Panos, linhas, rendinhas, caderno de anotações. Tudo meticulosamente organizado.

As alunas vêm uma a uma. Jovens, graciosas, mas com um certo ar de urgência — talvez econômica. Cada uma permanece por cerca de quinze minutos, borda alguns pontos nas amostras e vai embora levando um pequeno embrulho feito com o jornal que Victor deixara.

O detalhe não me escapou: sempre o mesmo jornal, sempre aquele deixado no banco. E as garotas? Nunca trazem os trabalhos prontos na semana seguinte.

3. O Homem de Terno

Assim que a última aluna parte, chega um senhor elegante, de terno escuro. Vai direto ao banco ao lado da mesa de Natália. Não se cumprimentam, não trocam palavras. Mas os olhares? Dizem tudo. Há familiaridade ali. Talvez romance, talvez conspiração. Dei-lhe o nome de Vladimir.

Ele fuma devagar. Ao final, joga o maço vazio no chão — um gesto grosseiro, mas que Natália sempre corrige. Antes de partir, ela recolhe o maço, junto aos restos de linhas e panos, e o descarta na lixeira. Quase um ritual. Quase um código.

4. A Teia Invisível

Enquanto sovo massas de torta e sonho com meu futuro restaurante nas montanhas — o Samantha’s Bistrô, cozinha autoral especializada em caças e aves —, passo a enxergar o trio com outros olhos. E se Victor, Natália e Vladimir estivessem ligados?

Foi quando a faísca acendeu.

Victor circula anúncios para codificar mensagens. Deixa o jornal no banco. Natália recolhe, embrulha material com ele, e as alunas — agentes disfarçadas? — levam o conteúdo para fora da praça. Vladimir entrega o próximo comando no maço de cigarros, discretamente depositado e discretamente recolhido.

5. A Confirmação

Minha mente fervilha com a descoberta. Estaria eu presenciando a ação de uma rede de espionagem? Uma célula operando à luz do dia, debaixo do nariz de toda a cidade?

No dia seguinte, corro à banca antes de Victor chegar. Compro o mesmo jornal que ele costuma usar. Comparo. Estudo. Tento decifrar.

Então, horas depois, como uma bofetada do destino, a verdade vem no título do jornal do dia:


JORNAL O GLOBO
PRESA EM SÃO PAULO NATÁLIA BUTINA, A VIÚVA NEGRA
Treinada pela Sala Vermelha, organização com laços com a antiga KGB, recrutava jovens para atuar como espiãs e assassinas.


Fico paralisada. Natália. A mesma. A mulher que ensinava bordado na praça, que sorria às suas alunas. Que recolhia lixo como quem cuida do planeta.

E Victor? E Vladimir?

O jornal não diz. Mas eu sei. Eu vi. A praça nunca foi tão silenciosa. Nem tão perigosa.

Fim.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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