Por Silvana Helal Nascimento
Há sentimentos difíceis de explicar. Alguns nos acompanham silenciosamente durante anos, mesmo quando aparentemente não existe motivo para senti-los.
Desde a infância, eu experimentava uma sensação que não conseguia compreender. Tinha uma família maravilhosa, amor, acolhimento e tudo aquilo que poderia desejar. Reconhecia o quanto era privilegiada pelas pessoas que faziam parte da minha vida. Entretanto, havia algo que parecia faltar.
Era um vazio estranho, uma espécie de saudade sem endereço. Por vezes, sentia-me como um “cachorro sem dono”, embora estivesse cercada de amor e jamais tivesse experimentado o abandono familiar. Era uma contradição que eu mesma não conseguia entender.
Como alguém poderia ter tanto e, ainda assim, sentir falta de alguma coisa e de pessoas que não sabe quem são?
Eu não desejava outra família, outra casa ou uma vida diferente. A questão era mais profunda. Parecia existir uma distância entre aquilo que eu vivenciava e algo que intimamente esperava encontrar, mas não sabia identificar.
Desde os seis anos, também vivenciava experiências que hoje compreendo como parapsíquicas. Naquela época, não possuía conhecimentos para explicá-las. Apenas percebia determinadas manifestações e sentia que havia aspectos da realidade que não se limitavam ao mundo físico.
Lembro-me de olhar muito para o céu. Havia uma saudade persistente, como se eu procurasse alguma referência que não conseguia localizar. Sentia falta da minha turma, de pessoas que não sabia identificar e de um lugar cuja existência não conseguia explicar.
Não conhecia os conceitos de multidimensionalidade, vidas anteriores ou grupos evolutivos. Não havia uma teoria por trás daqueles sentimentos. Havia apenas a experiência íntima, acompanhada da dificuldade de encontrar palavras para expressá-la.

Ao mesmo tempo, minha maneira de compreender o mundo parecia não corresponder inteiramente à visão das pessoas ao meu redor.
Frequentemente, era considerada romântica. Algumas pessoas interpretavam minha maneira de pensar como ingenuidade, chegando a acreditar que eu não conseguiria realizar determinadas coisas. Entretanto, minha percepção era diferente. Eu enxergava possibilidades nas relações e nos comportamentos humanos que nem sempre encontravam correspondência na realidade cotidiana.
Isso me provocava estranhamento. Não porque me considerasse melhor ou mais preparada, mas porque parecia existir uma distância entre os valores nos quais acreditava e aqueles que observava nas atitudes das pessoas.
Era como se eu esperasse encontrar uma forma de convivência mais cooperativa, fraterna e coerente, sem conseguir compreender por que determinadas relações humanas precisavam ser tão complicadas.
Aos poucos, essas experiências foram compondo uma pergunta que me acompanharia por muito tempo: como alguém pode ter tanto, sentir-se tão amada e, ainda assim, experimentar saudade de algo e de alguém que não consegue identificar?
Durante anos, não encontrei uma explicação que reunisse essas vivências de maneira satisfatória.
Foi ao conhecer a Conscienciologia e o Paradigma Consciencial que passei a considerar outras possibilidades de interpretação.
Essa abordagem propõe que a consciência não se limita ao corpo físico nem à personalidade construída na vida atual. Segundo suas hipóteses, somos consciências em evolução, com experiências acumuladas em diferentes existências e capacidade de manifestação em múltiplas dimensões.
Nesse contexto, o parapsiquismo é compreendido como uma possibilidade de percepção de informações além dos cinco sentidos convencionais. A multidimensionalidade, por sua vez, considera a existência de realidades que ultrapassariam o universo exclusivamente material.
Segundo essa perspectiva, ao renascer, a consciência passaria por um restringimento de suas lembranças, decorrente das limitações do corpo físico. Entretanto, poderia conservar tendências, afinidades, valores e ideias inatas relacionados às experiências anteriores.
Essas hipóteses abriram um campo de investigação sobre sentimentos que, até então, eu não conseguia compreender.
Seria possível experimentar saudade de pessoas que não reconhecemos nesta vida? Ou sentir falta de condições de convivência que não conseguimos recordar conscientemente?

O Paradigma Consciencial admite essas possibilidades, relacionando determinadas manifestações íntimas à história evolutiva da consciência.
Naturalmente, isso não significa que toda sensação de deslocamento ou saudade inexplicável tenha origem extrafísica. A Psicologia oferece contribuições importantes para compreender sentimentos de inadequação, solidão e dificuldades de pertencimento, considerando a história emocional, familiar e social de cada pessoa.
Entretanto, a perspectiva consciencial acrescenta outra dimensão à investigação: a possibilidade de existirem vínculos e experiências anteriores ao nascimento que influenciem a maneira como percebemos a vida atual.
Um dos aspectos mais significativos desse entendimento foi compreender a hipótese de que algumas afinidades profundas possam estar relacionadas a vínculos estabelecidos entre consciências ao longo de diferentes existências.
O conceito de família evolutiva, por exemplo, refere-se a consciências que compartilham afinidades, experiências e objetivos de crescimento e interassistência. Não se trata necessariamente da família biológica, mas de um agrupamento fundamentado em vínculos evolutivos.
Ao encontrar pessoas interessadas no estudo da consciência, no desenvolvimento do parapsiquismo e na responsabilidade interassistencial, comecei a compreender melhor aquela antiga sensação de procurar minha turma.
Não se tratava de rejeitar as pessoas que sempre fizeram parte da minha vida. Era a possibilidade de reconhecer afinidades que correspondiam a aspectos íntimos ainda pouco compreendidos.

Mais tarde, encontrei uma referência especialmente significativa no livro Síndrome do Estrangeiro: Banzo Consciencial, da pesquisadora Málu Balona.
A autora aborda uma condição caracterizada por sentimentos de inadequação, deslocamento e saudade de lugares e pessoas desconhecidos. Sob a ótica conscienciológica, essas manifestações podem estar relacionadas a experiências extrafísicas vivenciadas antes da existência atual.
Balona utiliza a expressão banzo consciencial para tratar dessa condição de saudade e inadaptação, associada, entre outras hipóteses, à abstinência das experiências do Curso Intermissivo.
A obra também aponta o reconhecimento das ideias inatas e o reencontro com pessoas afins da família evolutiva como possibilidades de superação desse estado íntimo.
Ao conhecer essa abordagem, encontrei uma referência para refletir sobre experiências que me acompanhavam desde a infância. Aquela saudade sem endereço, a procura por pessoas que não sabia identificar e a sensação de deslocamento passaram a integrar um campo mais amplo de autopesquisa.
Isso não significou encontrar uma resposta definitiva para todas as minhas perguntas, tampouco assumir um diagnóstico. Significou descobrir uma possibilidade de compreensão que dialogava com minhas vivências.
Hoje, considero que o aspecto mais importante dessa trajetória não está apenas em tentar compreender de onde viemos, mas em reconhecer o que podemos realizar durante a existência atual.
A autopesquisa, a qualificação dos pensamentos, sentimentos e energias e o desenvolvimento da interassistência são caminhos para transformar a sensação de inadequação em participação consciente.
Afinal, não basta encontrar pessoas com quem nos identificamos. É preciso aprender a conviver, contribuir e construir vínculos evolutivos também com aqueles que pensam e vivem de maneira diferente.
Talvez o maior aprendizado seja compreender que pertencimento não significa necessariamente encontrar um lugar perfeito ou pessoas exatamente iguais a nós.
Significa reconhecer nossa singularidade sem nos afastarmos da realidade, transformar nossas experiências em autoconhecimento e assumir a responsabilidade de contribuir para um mundo mais fraterno.
A saudade de algo e de alguém que não conseguimos identificar pode despertar inúmeras perguntas. Mas talvez a mais importante não esteja apenas no passado, em nossas possíveis origens ou nas pessoas que procuramos reencontrar.
Talvez esteja na maneira como escolhemos viver agora.
Porque, independentemente de onde tenhamos vindo, é nesta vida que encontramos as oportunidades de transformar nossas afinidades, talentos e experiências em evolução e interassistência.
Referência bibliográfica:
BALONA, Málu. Síndrome do Estrangeiro: O Banzo Consciencial. Rio de Janeiro: Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia, 1998.






























