Tem dias em que a gente se olha no espelho e não se reconhece.
E a primeira reação é estranhar. Questionar. Até rejeitar.
“O que aconteceu comigo?”
Mas a verdade, querido leitor e querida leitora, é que quase nunca é perda.
É transformação.
Ninguém fala muito sobre essa fase.
Aquela em que deixas de ser quem eras, mas ainda não te sentes totalmente quem estás a tornar-te.
É desconfortável.
É silencioso.
E, às vezes, profundamente solitário.
Porque crescer não é bonito todos os dias.
Crescer não é estético.
Crescer desorganiza, mexe, estica, confronta.

Crescer obriga-te a abandonar versões tuas que eram mais fáceis de carregar, mas que já não te representam.
E isso dói.
Dói perceber que já não encaixas em certos lugares, em certas conversas, em certas relações.
Dói entender que algumas pessoas estavam ligadas à tua versão antiga e não à pessoa que estás a tornar-te.
Mas também liberta.
Liberta quando entendes, querido leitor, querida leitora, que não estás perdido — estás em construção.
Que não estás atrasado — estás a alinhar.
Que não estás “demais” — estás, finalmente, a ser inteiro.
E há uma força absurda nisso.
Na pessoa que continua, mesmo cansada.
Na pessoa que se reconstrói, mesmo sem aplausos.
Na pessoa que decide não voltar para o que já não serve — nem por conforto.

Porque, no fundo, há um ponto de viragem.
Aquele momento em que deixas de tentar voltar a ser quem eras e assumes, com coragem, quem estás a tornar-te.
Sem pedir desculpa.
Sem tentar caber.
Sem se diminuir para ser aceite.
E quando isso acontece, já não há retorno.
Porque quem se encontra no meio do próprio caos não se abandona nunca mais.





























