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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

A reforma da minha vitalidade

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Para mim, não faz sentido vender um sonho que tantas vezes termina em frustração

Vivemos todos dentro de um sistema já predefinido que, de tempos em tempos, sofre alterações e manutenções. Algumas muito bem-vindas, outras, ah…, vamos deixar estar. Porém, quando falamos da carreira profissional, essencialmente do seu fim, existe uma única canção que, para mim, já está tão caduca quanto a própria ideia: “trabalhar anos para garantir uma boa reforma.”

Isso é mau? Oh…, depende do ponto de vista. Do meu, sinceramente, não faz muito sentido alguém traçar toda a sua vida num único padrão e contar apenas com um único ponto de recepção de fundos: a famosa pensão após a aposentadoria, o que chamo aqui de reforma.

Estamos a falar de 30, 40, 50 anos a trabalhar dentro de sistemas, contando apenas com um fim: a reforma. Será que, de certa forma, não estamos a tornar a pessoa acomodada? Sem o thrill, sem a ânsia de agarrar outras oportunidades? Porque, no final, comportando-se bem e trabalhando para o sistema, será recompensada.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Não me entendam mal. Não estou aqui a amaldiçoar o sistema nem a dizer que ele não é proveitoso. Mas por que não mudar a tática? Criar uma espécie de bónus de compensação a cada 5 ou 10 anos para que a pessoa possa investir, criar algo seu e aumentar ainda mais a sua renda?

Por que esperar pela velhice para desfrutar dos meus ganhos? E se a minha vitalidade me for arrancada muito antes disso? Será justo que toda a força da minha vida seja vivida e consumida por outros — neste caso, os herdeiros?

Por que não dar ao trabalhador a possibilidade de decidir? A opção de permanecer no sistema e, ao mesmo tempo, escolher retirar parte do seu dinheiro periodicamente, dentro de regras e critérios bem estruturados?

E eu já sei o que alguns dirão: “Mas Erica, isso seria um caos. Bastava acordar e decidir tirar dinheiro.” Não é disso que estou a falar. Refiro-me a algo sistematizado, organizado, com critérios claros sobre quando, como e por quê.

Porque, para mim, não faz sentido vender um sonho que tantas vezes termina em frustração.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Boa parte dos aposentados viveu conhecendo apenas uma realidade: “trabalhar para, na velhice, viver.” Hawena… chega a velhice e… morre”.

A pergunta que fica é: o que valeu? A que custo?

A reforma, muitas vezes, transforma-se numa espécie de sonho-relógio. Quer confirmar? Olhe para tantos reformados frustrados, sem saber muito bem o que fazer, principalmente aqui em África, onde as propostas para a vida pós-reforma são limitadas, quase inexistentes.

O número de reformados emocionalmente perdidos cresce a cada dia.

Então, para você, futuro reformado — esteja já na terceira idade ou não — faça um pé de projetos também, e não apenas um pé de meia.

E para o sistema, talvez seja tempo de reavaliar a forma como tratamos quem chega à reforma e os seus dividendos. Não podemos continuar a assistir pessoas lançarem ao vento a força da sua vitalidade por falta de conhecimento ou preparação.

Vamos apoiá-las para que vivam cada dia sendo remuneradas, bonificadas e, acima de tudo, tendo a oportunidade de viver a vida ainda com 90% da sua força vital.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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