Por Paulo Maia
Pedrinho realizava a viagem que alimentara nos sonhos por anos. Era sua estreia na Europa como mochileiro, bem dentro do espírito que movia a juventude dos anos 1980. O ritual consistia em juntar economias minguadas, espremer algumas trocas de roupa em uma mochila de lona para carregar nas costas, ter o passaporte no bolso interno da jaqueta, alguns dólares vivos e, o mais importante, o Europass necessário para cruzar fronteiras sobre trilhos.
Ele vinha de Londres e agora cruzava Madrid. Viajar sozinho era parte do manifesto de independência; queria acumular histórias para impressionar os amigos na volta. Munido de um guia Michelin e de pequenos dicionários de bolso, equilibrava-se no básico da comunicação para descolar hospedagem, decifrar cardápios e pedir direções.
O trem encostou na plataforma. Era hora de embarcar na longa jornada rumo a Paris, com uma baldeação prevista para uma cidadezinha perto da fronteira. Ao caminhar pelo corredor do vagão, Pedrinho notou outros estudantes que, como ele, praticavam um turismo aleatório, tendo apenas a disposição como bússola.
Achou sua cabine, acomodou a mochila no bagageiro superior e sentou-se junto à janela, mantendo o livro de leitura no colo enquanto observava o vaivém na gare. Pouco antes da partida, duas garotas entraram, cumprimentaram-no com um “¡Hola!” e ocuparam os assentos à sua frente. Ao ouvi-las conversar em inglês, Pedrinho arriscou algumas palavras para puxar assunto. Descobriu que eram americanas de férias pela Espanha, também com destino à Cidade Luz.
Trocaram nomes, origens e impressões sobre os museus visitados até que, entre risadas, uma delas conferiu o bilhete e percebeu que estavam na cabine errada; a delas era a vizinha. Enquanto elas recolhiam as sacolas para se mudar, um jovem na casa dos vinte anos, com traços orientais marcantes, entrou segurando a passagem. Seria o seu verdadeiro companheiro de viagem.

As americanas acenaram um “até logo” e saíram. O rapaz acomodou-se em frente a Pedrinho, que arriscou um “hola” de boas-vindas. O oriental respondeu com um aceno tímido de cabeça e desviou o olhar para o vidro. Pedrinho tentou o espanhol para perguntar o nome e a terra natal do companheiro. Em vão. O homem balançou as mãos de leve: “No, no… no hablar español”. Pedrinho tentou o inglês. Mesma reação. Não havia código comum. Nem passou pela cabeça do estudante tentar o português. O rapaz da frente apenas sorriu de canto, e o silêncio instalou-se entre eles enquanto o trem começava a se mover, ganhando velocidade a caminho do norte.
Passado algum tempo, sons de conversas e gargalhadas vindos da cabine ao lado ecoaram pelo corredor. Pedrinho levantou-se e viu que as americanas haviam feito amizade com um casal de espanhóis. Como a porta estava aberta, ele se aproximou e foi acolhido pelo grupo. Ao revelar que era brasileiro e estava de férias, despertou a curiosidade de todos. Sentou-se ali por uma hora, discorrendo sobre o Brasil e a sua cultura. A certa altura, comentou, divertido, sobre o misterioso companheiro de cabine com quem era impossível trocar uma única frase.
Quando retornou ao seu lugar, a atmosfera parecia um pouco menos desconfortável. Eles já se olhavam sem a estranheza inicial; trocavam sorrisos e balbuciavam pequenas interjeições para indicar que estava tudo bem. De repente, o oriental buscou algo na bagagem e estendeu um cartão de visitas a Pedrinho. Era o anúncio de um restaurante chinês em Madrid. O rapaz apontava para o papel e repetia: “Cook, cook…”. Pedrinho compreendeu: ele era cozinheiro.
Satisfeito com a brecha na muralha da língua, Pedrinho tentou retribuir e explicar o seu próprio ofício. Mas como traduzir que ele era um estagiário de contabilidade em um escritório no centro de São Paulo? Pedrinho disse “Brasil” e passou a gesticular no ar com os dedos, simulando os movimentos rápidos de quem datilografa em uma máquina de escrever. O chinês acenava e sorria largo, embora fosse difícil saber se visualizava um contador ou um pianista. Aquela mímica atrapalhada bastou para espantar o tédio dos trilhos.

O estômago reclamou e a tarde avançou. Pedrinho levantou-se e levou a mão à boca, convidando o cozinheiro para o vagão-restaurante. O chinês captou o sinal e o acompanhou.
O vagão estava cheio. Encontraram dois assentos vagos em uma mesa já ocupada por duas pessoas. Pedrinho pediu licença em inglês, e os dois foram recebidos com a cortesia típica dos viajantes. Eram franceses voltando para casa. Ao notarem o silêncio do chinês, que apenas sorria e concordava sem emitir som, os franceses questionaram sua origem. Pedrinho interveio, explicando que sabia muito pouco sobre o amigo, exceto que se chamava Yong, era chinês e trabalhava em uma cozinha madrilenha.
Yong, ao ouvir o próprio nome, estendeu novamente o cartão do restaurante aos franceses. Foi quando o milagre da viagem aconteceu: um dos franceses fixou os olhos no cartão e, subitamente, dirigiu-se a Yong em mandarim.
O rosto do chinês iluminou-se em um espanto indescritível. Ele desandou a falar em sua língua natal com o francês, que havia morado em Xangai e guardava uma fluência razoável no idioma. A história de Yong finalmente ganhou voz e tradução. Ele passava os dias confinado na cozinha com seus conterrâneos, sem tempo ou oportunidade para aprender o espanhol. E o motivo de sua viagem era urgente: cruzava a Europa para visitar a mãe, que estava gravemente doente em Paris. Pedrinho sentiu um aperto no peito ao lembrar-se do rapaz apontando para o bilhete horas antes, balbuciando “mama” e algo que soava como “loca”, mas que na verdade era “hospital”.
Graças ao tradutor improvisado, Pedrinho e Yong finalmente se conheceram. Ao retornarem para a cabine, o silêncio já não era um abismo; era uma cumplicidade. Passaram a se olhar com o afeto de quem partilha um segredo. A mímica agora era mais fluida, embora a exatidão das palavras fosse o que menos importava. A presença improvável que um oferecia ao outro preenchia o espaço.
O sol da tarde começou a tombar, banhando os campos da fronteira com uma luz dourada. Pedrinho e Yong ficaram de pé no corredor, debruçados na janela de metal, dividindo a mesma paisagem em silêncio. Era uma daquelas imagens que o tempo se recusa a apagar.
Após a troca de composições, no trem que os levaria direto à Gare du Nord, os dois passaram o tempo tentando ensinar um ao outro palavras em seus respectivos idiomas. Riam dos sotaques, erravam as vogais e o trajeto final voou.

Paris os recebeu com a agitação da noite na estação. Antes de buscar o metrô para o seu hotel, Pedrinho fez questão de acompanhar Yong até o ponto de táxi. Tomou a iniciativa de abordar o motorista francês, explicou a situação em seu inglês arranhado misturado com gestos, apontou o endereço escrito no papel e certificou-se de que o taxista havia compreendido o destino. O motorista deu um aceno positivo.
Na hora da despedida, os dois companheiros improváveis deram um abraço apertado. Pedrinho, misturando as poucas palavras que tinham restado, desejou sorte e melhoras para a mãe de Yong. O cozinheiro provavelmente não entendeu os termos exatos, mas o calor daquele abraço foi o suficiente para aquecer o peito de ambos. Havia a certeza mútua de que, por cima de qualquer barreira linguística ou cultural, eles haviam compartilhado aquele afeto primitivo e bonito que define a nossa humanidade.
Nas semanas seguintes, Pedrinho ficaria deslumbrado com o Louvre, com a imponência da Torre Eiffel, do Arco do Triunfo no final da Champs-Élysées e com a toda a monumentalidade da Europa. Mas, anos mais tarde, ao recordar aquela jornada para os filhos e netos, ele compreenderia que a verdadeira cartografia de sua viagem não estava nos museus. O momento mais bonito da sua juventude havia sido desenhado a lápis em um cartão de visitas de um restaurante chinês, à beira de uma janela de trem que corria em direção ao amanhã.





























