Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora, enquanto o país respira a atmosfera febril e a ansiedade cultural de uma Copa do Mundo — um território onde os papéis de heróis, o orgulho e a identidade parecem tão nitidamente desenhados —, a vida cotidiana fora dos estádios nos devolve a um cenário de profunda confusão de costumes. Refiro-me, especificamente, aos debates ruidosos que têm dividido a sociedade nos últimos anos sobre o machismo e os papéis de gênero.
Se navegarmos pela superfície da internet hoje, testemunharemos um fenômeno curioso: o surgimento de imersões, acampamentos e cursos de “masculinidade ancestral”, movimentos que tentam vender manuais de como resgatar um pretenso orgulho masculino. Longe de mim querer ditar regras ou me colocar como régua para o comportamento alheio. O meu questionamento não é sobre a origem dessas iniciativas, mas sobre algo mais prático: para que serve tudo isso?
Confesso que não sou entusiasta das cartilhas do movimento woke ou de certas vertentes do feminismo radical, que muitas vezes parecem reagir ao mundo através de uma guerra de trincheiras ideológicas. Mas, por outro lado, a resposta oferecida pela chamada “machosfera” me parece igualmente vazia. E perigosa.
Ao tentar estabelecer critérios rígidos e papéis sociais supostamente “naturais” para o homem ou para a mulher, esses movimentos apenas aprofundam o abismo das responsabilidades que todos nós compartilhamos. Transformar a identidade em um checklist de marketing pessoal ou em uma performance comercial é de um reducionismo absoluto.

A sociedade não é uma fotografia estática; é um tecido vivo que se transforma o tempo todo em função de nossas ações e da justa revisão do papel feminino em áreas antes exclusivamente masculinas. A inserção ativa da mulher no tecido social é uma realidade que enriquece a civilização. O papel do homem contemporâneo não é isolar-se em uma “caverna mítica” para aprender a ser “macho”, mas compreender sua inserção nesse mundo em movimento.
O sociólogo Zygmunt Bauman explicava que a fluidez da nossa era gera uma enorme ansiedade de identidade. Na falta de referências sólidas, as pessoas buscam fórmulas fáceis em manuais de internet. No entanto, a verdadeira masculinidade — assim como a feminilidade — não se aprende em um curso de fim de semana. Ela se manifesta na textura do real, na decência das responsabilidades assumidas dentro do seio familiar e no exemplo que deixamos para os mais novos.
Temos naturezas diferentes e, ao mesmo tempo, profundamente complementares. Quando adultos, somos, antes de tudo, responsáveis por ser modelos para as próximas gerações. E essa formação decente de um jovem para a vida em sociedade exige tanto o olhar e o afeto masculino quanto o feminino. São visões de mundo diferentes que se somam, baseadas no respeito e na alteridade — que, como nos ensinava o filósofo Emmanuel Levinas, significa reconhecer e honrar a diferença do Outro, sem tentar colonizá-lo.
Para além das paredes de nossas casas, há uma dimensão social que é pública, e nela todos somos rigorosamente responsáveis por nossos posicionamentos e por suas consequências. Precisamos ter a humildade de lembrar que ninguém — absolutamente ninguém — detém a verdade absoluta ou a fórmula de como devemos agir ou ser. Em um mundo fragmentado em “bolhas” virtuais e ideológicas, a convivência civilizada e o diálogo aberto continuam sendo as nossas bússolas mais valiosas. São eles que nos dão as orientações dignas da experiência da vida e garantem a nossa sobrevivência coletiva.

A história já nos mostrou, por meio de lições dolorosas e sangrentas, que a discriminação por qualquer característica, opinião, crença religiosa, ideologia ou costume nunca foi a saída. O isolamento em guetos morais e a intolerância com o diferente invariavelmente pavimentaram o caminho para perseguições que, mais cedo ou mais tarde, culminaram em grandes tragédias humanas.
É preciso dar nome aos bois e encarar a face mais cruel desse fenômeno em nossos dias: essa busca equivocada por uma masculinidade caricata e impositiva tem cobrado um preço trágico no Brasil, traduzido no aumento alarmante dos casos de feminicídio. Quando o debate público é esvaziado e substituído por cartilhas que reforçam o sentimento de posse, dominação e hostilidade, a consequência direta se manifesta na violência física contra as mulheres, ceifadas simplesmente por exercerem sua existência e liberdade. Movimentos sociais, sejam eles quais forem, de qualquer espectro ou finalidade, perdem completamente sua razão de ser se não partirem de um princípio inegociável: o repúdio absoluto à violência de gênero e o compromisso sagrado com o respeito ao ser humano e à preservação da vida.
A dignidade de um gênero ou de um pensamento não se prova no grito, na exclusão ou na soberba de um movimento, mas na capacidade de oferecer estrutura, afeto e civilidade.
No grande e complexo teatro da existência, a verdadeira La Dolce Vita não pertence aos que vivem encenando arquétipos rígidos para a plateia das redes sociais, mas aos que têm a paz de espírito de exercer sua própria natureza com respeito, tolerância e responsabilidade na crueza da vida real.





























