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Será que temos alguma qualidade genuína?

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Em um mundo onde todos performam certezas absolutas e ostentam "qualidades" em cartões de visitas digitais, a passividade moral de Ulrich surge como uma incômoda forma de lucidez

“Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar; ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem.” — Robert Musil, em O Homem sem Qualidades

Por Paulo Maia

Meu caro leitor e minha querida leitora, perdoe-me se lhe apresento aqui um punhado de perguntas desconfortáveis. Você se considera uma pessoa que realmente gosta de conversar? Julga-se alguém que demonstra uma preocupação autêntica com o que ocorre ao seu redor? Consegue decifrar o que se passa no mundo atualmente, além das manchetes fáceis e dos vídeos de trinta segundos? Entre os seus hábitos cotidianos, a leitura ainda encontra algum respiro?

E, se me perdoam ainda a ousadia, acrescento mais duas provocações: há alguma profundidade real em seu espírito que o torne alguém verdadeiramente interessante? Existe algo em você, de fato, que possa ser útil a outra alma humana, para além das competências técnicas do seu currículo?

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Se essas perguntas causaram algum incômodo, o objetivo foi cumprido. Esse é exatamente o teor de uma das maiores obras-primas da literatura universal: O Homem sem Qualidades, do mestre austríaco Robert Musil. Publicado originalmente em volumes entre 1930 e 1943, o livro é um rolo compressor de ideias que gira em torno da nossa incapacidade crônica de melhorar o mundo e da vaidade que depositamos em nossas supostas virtudes.

Não se engane: não é uma leitura dócil. Trata-se de uma obra monumental e inacabada — Musil dedicou vinte anos da sua vida a ela e o destino quis que partisse antes de colocar o ponto final. Ao lado de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e de Ulisses, de James Joyce, o romance é um dos pilares do modernismo.

A narrativa acompanha o cotidiano de duas dezenas de personagens na Viena de 1913, capitaneados pelo protagonista Ulrich. Matemático brilhante, Ulrich decide tirar um “ano sabático da vida” para buscar um sentido para a realidade. O título do livro é a sua maior ironia. Ulrich não é um homem medíocre; ele é o “homem sem qualidades” porque recusa-se a adotar as etiquetas, os títulos e os papéis pré-fabricados que a sociedade da época exigia.

Condutores de fiacres e vendedores de água em frente à loja Kodak no número 29 do Graben em uma cena cotidiana de Viena. Fotografia tirada por volta de 1905 e 1914.
Foto por Emil Mayer, Public domain, via Wikimedia Commons

Se Musil escrevesse hoje, Ulrich seria aquele que se recusa a preencher a biografia do Instagram com adjetivos corporativos ou virtudes de vitrine. Em um mundo onde todos performam certezas absolutas e ostentam “qualidades” em cartões de visitas digitais, a passividade moral de Ulrich surge como uma incômoda forma de lucidez.

Através do cotidiano vienense às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Musil discute ciência, religião, política e filosofia. O que assombra o leitor contemporâneo é notar como aquele mundo de mais de cem anos atrás, inflado de burocracia, vaidades vazias e uma total incapacidade de enxergar o colapso iminente, é assustadoramente idêntico ao nosso.

Na história, os personagens se envolvem na chamada “Ação Paralela”, uma gigantesca comissão criada para planejar uma grande celebração patriótica que ninguém sabe direito o que significa. É a metáfora perfeita para o nosso ativismo de sofá e para as reuniões corporativas que moem tempo e inteligência em troca de curtidas e relatórios vazios. É a burrice ativa em seu estado mais puro: móvel, pretensiosa e vestindo os trajes da verdade.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Como mencionei, enfrentar essa monstruosidade literária exige estratégia. Deixo aqui uma sugestão prática: transforme O Homem sem Qualidades em seu livro de cabeceira. Leia-o em pequenas doses, algumas páginas antes de adormecer.

Deixe que essas pílulas de ironia fina, sagacidade e crueza sobre a natureza humana decantem no seu espírito durante o sono. Talvez assim, ao despertarmos na manhã seguinte, estejamos um pouco mais equipados para encarar as perguntas que abrem este texto — e que, queiramos ou não, já estarão de pé nos esperando na mesa do café.

Robert Musil | Fonte não especificada em , Public domain, via Wikimedia Commons

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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