Por Paulo Maia
Aos vinte e três anos, ele dominava duas linguagens que exigiam precisão absoluta e nenhuma margem para sentimentos. De dia, em um escritório de paredes claras no início dos anos 1980, ele era um programador de computador — uma profissão que no Brasil daquela época carregava o frescor do futuro e um prestígio quase aristocrático. Ele lidava com cartões perfurados, códigos binários e lógicas inabaláveis. À noite, valendo-se de sua estatura alta, traços marcantes e um charme natural, ele operava sob outro sistema. Tornava-se garoto de programa.
Suas clientes eram mulheres mais velhas, de situação financeira abastada; em sua maioria casadas, presas a casamentos de fachada, que buscavam nos braços de um rapaz mais jovem o vigor e a vertigem de uma aventura sexual. Elas não queriam romance; pagavam pelo luxo do anonimato e pela garantia do distanciamento. Pelo menos uma vez por semana, a agenda dele estava ocupada. Às vezes, o compromisso estendia-se por um fim de semana inteiro, como acompanhante em alguma viagem discreta.
Toda a engrenagem era intermediada por um colega, um agente silencioso que filtrava os contatos e preservava as identidades. Foi esse intermediário quem o procurou certa tarde com uma recomendação incomum:
— A cliente de hoje é especial — alertou o homem, num tom profissional. — É uma das primeiras experiências extraconjugais dela desta forma, quero dizer, é a primeira vez que ela contrata alguém. Talvez ela recue. Esteja preparado para passar a noite apenas conversando em um jantar.

Para o rapaz, tudo bem. Fazia parte do ofício. O primeiro sinal de que as regras seriam diferentes, contudo, veio na instrução do encontro: ele não a esperaria no balcão de um bar ou na penumbra de um restaurante, como de costume. Deveria aguardar em uma esquina específica por um veículo que viria buscá-lo.
À hora marcada, um sedã escuro e polido estacionou junto à calçada. O motorista desceu, limitou-se a um “boa noite” protocolar e abriu a porta traseira. O trajeto terminou em um hotel discreto, afastado do centro da cidade. Ela o aguardava na mesa do restaurante.
Jantaram e conversaram. Ao contrário do alerta do agente, não houve recuo. A noite desdobrou-se em um jogo de sedução sofisticado que elevou a libido do jovem programador. Dormiram juntos. Na manhã seguinte, ela acordou antes do sol. Despediu-se com um beijo suave, dizendo que a noite havia sido maravilhosa, e avisou que ele poderia usufruir do quarto até o horário do check-out — o motorista estaria à espera na recepção para levá-lo de volta.
Ao desembarcar no ponto de partida, antes que ele fechasse a porta do carro, o motorista estendeu-lhe um envelope pardo. Dentro, o dinheiro vivo. O pagamento. Ele agradeceu e seguiu sua rotina.
Aquele roteiro exato repetiu-se ao longo dos meses seguintes. Mas havia uma falha que o sistema daquele arranjo não previu: os encontros com aquela mulher ganharam uma cadência diferente. Havia o que ele passou a chamar de as preliminares das preliminares. O sexo nunca era imediato; era precedido por horas de conversas densas, trocas de afeto e uma conexão que, pelo menos para ele, parecia genuína. Riam como dois adolescentes, ignorando o mundo lá fora. Nas poucas horas em que dividiam os lençóis daquele hotel, nenhum dos dois tinha passado. Ela jamais mencionava o marido ou dava detalhes de sua vida burguesa. E ele aceitava a mudez dos fatos.

Até que ele cometeu o erro crucial: apaixonou-se.
Apaixonou-se pela forma como ela sorria entre os lençóis, pelo tom da sua voz no escuro e pela suspensão do tempo que aqueles encontros proporcionavam. Nas últimas semanas, a urgência de confessar o que sentia tornou-se um nó na garganta. Ele alimentava o sonho ingênuo de que uma declaração honesta romperia o tabuleiro do jogo. Quem sabe ela não se separaria? Quem sabe não poderiam viver um amor real, sem envelopes ou motoristas? Mas, para avançar, ele precisava decifrar quem ela era fora daquele quarto. Dizer a verdade parecia-lhe um ato de coragem que merecia recompensa.
O tempo passava e a coragem falhava. Ela, madura e escolada nas dinâmicas do desejo, começou a notar a mudança no humor do rapaz. Percebia o olhar distante, a angústia que começava a turvar o prazer. Com a experiência de quem sabe exatamente o que comprou, ela percebeu que o brinquedo estava prestes a quebrar.
No final do que viria a ser o último encontro, ao desembarcar do sedã na mesma esquina de sempre, o rapaz agiu por um impulso controlado. Quando o motorista estendeu o envelope pardo, ele não o pegou. Em vez disso, olhou para o homem com um sorriso calmo, a voz mansa de quem acreditava ter encontrado a saída perfeita:
— Sabe… diga a ela que eu não quis receber desta vez. Diga que prefiro explicar o motivo pessoalmente, por telefone. Peça, por gentileza, para que ela me ligue.
Ele fechou a porta do carro, sentindo uma onda de suave adrenalina. Fora educado e sutil, transformando a recusa em um convite. Achara a brecha perfeita: forçaria um contato direto, sem intermediários, onde poderia abrir o coração sem arruinar a noite de prazer que recém haviam tido. Voltou para casa caminhando pelas ruas frias da madrugada, ensaiando as palavras, arquitetando o futuro e transformando o devaneio em certeza.

Ele esperou pelo telefonema no dia seguinte. E no outro. E na semana posterior. O aparelho na parede de sua sala permaneceu mudo. E o pior: ela não contatara mais seu colega para agendar um novo encontro!
Desesperado, procurou o colega pedindo pelo nome, o telefone ou qualquer rastro da mulher. O homem respondeu com uma frieza profissional:
— Eu sou um profissional, garoto. Eu não vou quebrar a única regra que nos mantém vivos neste negócio. Não vou te dar informação nenhuma. Não me procure mais. Se eu precisar de você, eu te ligo!
Este pedido custou-lhe o intermediário e, consequentemente, uma de suas maiores fontes de renda. Mas a perda financeira era um detalhe irrelevante diante do verdadeiro naufrágio: ele perdera as noites de júbilo e a única pessoa que havia conseguido desprogramar a sua solidão.
Pensou em procurar por ela de alguma forma, mas aonde? Por vezes, se via fixando os olhos em cada sedã escuro que cruzava a Avenida Paulista. Inútil. Ele deu-se conta, com uma ironia cortante, de que não sabia o seu sobrenome, o seu endereço, a sua rotina ou o nome do homem com quem ela dividia a vida. Ela era um fantasma que ele próprio havia expulsado.

Ao final, tudo se acabou por revelar a ele uma ironia incômoda: ela pagou para ele ser um espelho, uma projeção de desejos, sem passado nem futuro, e quando ele tentou dar a ela um rosto humano, uma identidade e um sentimento real, a ilusão se quebrou. O preço do anonimato é sempre o silêncio.
Anos mais tarde, com o cabelo já grisalho e os computadores operando em sistemas que sua juventude jamais ousaria imaginar, ele ainda se pegaria fitando a janela em uma noite de chuva, fazendo a pergunta que todo coração partido herda do passado: se ele não tivesse insistido no sentimento, teria tido mais tempo ao lado dela? Teriam durado mais alguns meses?
Sua reflexão o levou a entender que, ao final de qualquer naufrágio amoroso, a razão sempre retoma o código de origem. Quando o coração toma a frente da nossa história e decide quebrar as regras do jogo, não nos resta mais nenhuma linha de programação para salvar o sistema. Resta apenas aceitar o silêncio da linha telefônica que nunca vai tocar.





























