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Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

O que fica depois da paixão

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

A morte como mestra da vida e o que os casamentos que duram têm para nos ensinar sobre o amor

A morte é, talvez, a mais honesta das professoras. Não porque goste de ensinar, mas porque não sabe mentir: quando alguém parte, tudo o que resta é aquilo que foi realmente construído — não o que dissemos que faríamos, não as promessas de um dia distante, mas a vida efetivamente vivida. É por isso que, diante da morte, tantas vezes deixamos de olhar apenas para quem se foi e passamos a olhar, com outros olhos, para quem ficou — e para o que essa permanência significou.

Há mortes que nos fazem chorar por quem se foi. E há mortes que nos obrigam a enxergar, enfim, quem continua ao nosso lado.

Foi essa reflexão que a notícia da morte de Glória Menezes me trouxe. Uma das grandes damas da dramaturgia brasileira, esteve ao lado de Tarcísio Meira por 60 anos. Sessenta anos não é um número: é uma vida inteira construída a dois, atravessando décadas de mudanças no país, na profissão, nos próprios corpos e na própria forma de amar. No mesmo dia fui ao velório do irmão de uma amiga querida — um homem que também viveu mais de 40 anos ao lado da mesma mulher. Duas histórias, duas gerações, um mesmo fio condutor: a permanência.

E é curioso como a morte, tantas vezes, nos devolve às perguntas mais simples e mais difíceis. O que faz um casal atravessar quatro, cinco, seis décadas juntos, quando tantos outros não resistem nem a quatro, cinco, seis anos? O que sabiam esses casais que talvez ainda não tenhamos aprendido?

Duas formas de responder às dificuldades

Todo relacionamento, cedo ou tarde, encontra as suas contrariedades. A vida cuida disso — doenças, perdas financeiras, filhos, o simples desgaste do tempo. Diante disso, existem, grosso modo, dois caminhos.

Há quem permaneça, escolhendo reconstruir, dia após dia, aquilo que se desgasta. E há quem parta, na esperança de que a próxima relação será, finalmente, a certa. Não há aqui um juízo moral — partir pode ser, muitas vezes, um ato de coragem e de saúde emocional. Mas é interessante observar aqueles que fazem da partida um hábito, uma espécie de busca permanente por um recomeço que nunca se concretiza. O cantor Fábio Júnior, casado sete vezes, é hoje quase um símbolo popular dessa procura incessante pelo “próximo amor perfeito” — talvez sem perceber que o que falta não está fora, mas no modo como se ama.

Porque a pergunta que realmente importa não é “encontrei a pessoa certa?”, mas sim: o que acontece ao Amor depois que a paixão passa?

Quando o conto de fadas termina

No início de qualquer relacionamento, vivemos a fase da conquista. Tudo é encanto, tudo é entrega, os defeitos do outro parecem invisíveis — não porque não existam, mas porque ambos estão empenhados em mostrar o melhor de si. É a fase da paixão, quimicamente intensa e psicologicamente enganosa, porque nos faz acreditar que aquele estado de graça será eterno.

Depois vem a vida real. E, para muitos, sobretudo para quem já viveu um relacionamento anterior que não deu certo, surge a tentação de procurar alguém radicalmente diferente do parceiro anterior — como se o problema estivesse sempre na “pessoa errada”, e nunca na linguagem que usamos para nos fazermos entender.

Porque, no fundo, é disso que se trata: de linguagem.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

O mito dos 7%

Existe uma crença muito difundida no universo do desenvolvimento pessoal segundo a qual a comunicação seria 55% linguagem corporal, 38% tom de voz e apenas 7% palavras. Se isso fosse rigorosamente verdade, todos nós conseguiríamos negociar um contrato em russo, em mandarim ou em japonês apenas com gestos e entonação. Para pedir água ou indicar um caminho, talvez funcione. Mas ninguém sustenta uma reunião de negócios, ou sequer uma conversa cotidiana minimamente complexa, sem dominar a sintaxe e o vocabulário de um idioma.

E é precisamente aqui que esse mito se torna perigoso quando o transportamos para dentro do casamento. Se acreditarmos que a palavra vale quase nada, deixamos de nos dar ao trabalho de dizer o que sentimos — e passamos a esperar que o outro “adivinhe” pelo olhar, pelo tom, pelo silêncio. Ora, é exatamente a palavra que nos permite nomear a nossa própria linguagem do amor e perguntar, com clareza, qual é a do nosso cônjuge. Sem esse diálogo verbalizado, ficamos reféns de interpretações — e a interpretação, sabemos, é o território onde mais mal-entendidos amorosos nascem.

Essa importância da palavra torna-se ainda mais evidente quando a linguagem do amor de alguém é, precisamente, as palavras de afirmação. Para quem se sente amado através do que é dito — um elogio sincero, um “tenho orgulho de ti”, um simples “obrigado por estares aqui” —, nenhum gesto silencioso, por mais generoso que seja, substitui o efeito de ouvir a frase certa, no momento certo. É por isso que casais que cultivam o hábito de conversar sobre o próprio relacionamento — que dizem em voz alta o que os fere e o que os enche de alegria — costumam navegar as crises com mais serenidade do que aqueles que confiam apenas em gestos e pressupõem que o outro “já devia saber”. A palavra não é o único idioma do amor, mas é, quase sempre, a ponte que nos permite descobrir qual é o idioma do outro.

Com os relacionamentos amorosos acontece algo semelhante. Cada pessoa aprendeu a amar — e a sentir-se amada — dentro do seu próprio sistema familiar, com os seus próprios códigos, muitas vezes silenciosos e nunca conversados. A psicologia do desenvolvimento mostra, há décadas, que o afeto e o contacto físico recebidos na infância moldam profundamente a forma como um adulto se relaciona, confia e se vincula a outra pessoa — e que a sua ausência pode deixar marcas emocionais duradouras. Não é uma explicação simples nem única para os grandes dramas humanos, mas é um lembrete poderoso de que ninguém nasce sabendo amar: aprende-se, e aprende-se de formas diferentes.

E se cada um de nós aprendeu uma “língua” diferente para dar e receber amor, não é de espantar que tantos casamentos entrem em crise — não por falta de amor, mas por excesso de mal-entendidos. Um parceiro demonstra afeto através de gestos práticos, cozinhando, resolvendo problemas do dia a dia; o outro precisa ouvir que é amado, precisa de palavras. Um valoriza o toque; o outro, o tempo de atenção plena, sem celular, sem pressa. Nenhum dos dois está errado. Simplesmente falam idiomas diferentes — e, sem tradução, o amor vai-se afogando em silêncios que ninguém sabe decifrar.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

As cinco linguagens

Foi o psicólogo norte-americano Gary Chapman quem sistematizou essa ideia de forma simples e transformadora, ao identificar cinco linguagens do amor: palavras de afirmação, tempo de qualidade, presentes, atos de serviço e toque físico. A proposta não é escolher apenas uma e ignorar as demais, mas compreender qual delas fala mais alto ao coração do seu parceiro — e qual fala mais alto ao seu.

O antigo chavão “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” parte, na verdade, de uma premissa equivocada: a de que todos nós desejamos e sentimos as mesmas coisas da mesma forma. Não desejamos. Seria como oferecer um prato de carne a quem é vegetariano, convencidos de que estamos a fazer uma gentileza — porque é isso que nós gostaríamos de receber. A intenção é boa; o gesto, porém, ignora por completo quem a pessoa realmente é. Com o amor passa-se o mesmo: de nada adianta oferecer ao outro aquilo que eu gostaria de receber, se a sua língua do amor é outra. A verdadeira generosidade não é dar o que eu daria a mim mesmo, mas dedicar-me a conhecer, genuinamente, como o outro precisa de ser amado — e amá-lo nesses termos, mesmo quando são diferentes dos meus.

O que fica, quando tudo passa

Talvez seja essa a grande lição que Glória Menezes e Tarcísio Meira, e tantos casais anônimos como o irmão da minha amiga, nos deixam. Não um amor sem crises — nenhum casamento de décadas está livre delas —, mas a decisão renovada, dia após dia, de continuar a aprender a língua do outro, mesmo quando ela muda, mesmo quando envelhece, mesmo quando a vida a torna mais difícil de falar.

A morte, ao encerrar essas histórias, devolve-nos à questão que verdadeiramente importa — não “o que acontece ao amor depois do casamento?” Mas, o que você tem feito para manter vivo o Amor dentro do seu casamento?

Fique com essa pergunta. Talvez a resposta esteja mais próxima do que imagina — na linguagem certa, dita à pessoa certa, no momento certo.

Se quiser descobrir qual é a sua linguagem do amor — e talvez perceber, pela primeira vez, por que certos gestos do seu par nunca lhe pareceram suficientes —, envie-me uma mensagem através do meu perfil no Instagram @manuabrunhosa e terá acesso ao teste que uso nos meus atendimentos.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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