Querido leitor, querida leitora, sendo eu africana, cresci a ouvir várias frases culturais e, entre elas, uma que, infelizmente, muitas pessoas levaram ao pé da letra:
“Onde come um, comem dois.”
A família sempre apoia a outra.
“João deve ir estudar para melhorar a vida da família.”
Quer dizer, coloca-se a responsabilidade numa única pessoa de prover para toda a família ou de ser a esperança da boa vida de todos.
E a pergunta que não quer calar é: será justo?
Vezes sem conta, após o sucesso desse mano João, alcançado por esforço e mérito próprio, ouvimos os familiares gritarem:
“Hoje que está rico já não somos nada. Ontem, quando não tinha nada, éramos pessoas. Já tem dinheiro e corrompeu-se.”
Mas será que realmente se corrompeu?
Ou simplesmente, como diriam os melhores escritores, a família eram os insubstituíveis que o João deveria carregar até ter a sua carta de euforia?
Será que o facto de ser o mais bem-sucedido ou financeiramente estável significa que o João deve alimentar toda a sua família?
E a questão do esforço pessoal?

A ideia não deveria ser todos unirem os seus ganhos e capacidades e, no fim, criarem um império?
Ouvimos exemplos, como o da mulher do Cristiano Ronaldo, que, segundo relatos da imprensa, foi exposta pela própria família, com declarações de que, apesar de todo o luxo, ela não ajudava ninguém.
E, obviamente, de acordo com os tabloides, acabamos por demonizá-la.
Mas será que ela seria assim tão fria ao ponto de não deixar passar um único centavo?
Ou estaríamos aqui diante de vampiros financeiros, onde o foco é apenas pedir, pedir e pedir, sem aproveitar as oportunidades para crescer?
Então imagina: se nas cidades modernas isso acontece, imagina cá em África.
Sinceramente, é triste.
Famílias acabam por ser quebradas porque mano, tio ou João se recusam a ajudar os seus entes queridos menos favorecidos.
E pior ainda: quando esses mesmos “coitados” tiveram oportunidades semelhantes às de João, mas, por diversas razões, não seguiram o caminho certo, acovardaram-se e, no fim, ficaram com a esperança: “Ah, mano João vai ajudar, juro?”
Talvez seja necessário reavaliarmos o conceito de ajuda.
Porque cá em África, quando se trata de familiares, muitas vezes parece mais uma obrigação do que propriamente algo que nasce do coração.
Temos sobrinhos, primos e até irmãos a odiarem os seus familiares porque estes “se recusaram a ajudar”.
Mas será assim tão simples?
É preciso entender que o João também tinha e continua a ter os seus sonhos e desejos.
E isso não deve ser anulado por obrigações sociais ou consanguíneas.

Temos de respeitar o processo das pessoas e parar de exigir delas aquilo que nós próprios nem sequer temos disposição para proporcionar a nós mesmos.
Precisamos de parar com o vício do vitimismo e com o vampirismo dos bens materiais dos outros, simplesmente porque acreditamos que eles são o nosso elo dourado.
Foquemo-nos nos nossos projetos.
Na nossa educação.
No nosso esforço.
Naquilo que cada um de nós pode e deve fazer para alcançar as suas próprias metas de felicidade, sem depender constantemente dos outros.
Entendam uma coisa: ninguém nos deve obrigação alguma nesta vida.
Principalmente no mundo emocional.
Paremos de criar expectativas em relação aos ganhos dos outros.
Porque o sucesso de alguém pode abrir uma porta, mas atravessá-la continua a ser responsabilidade nossa.





























