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Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

Timshel: o poder de escolher ver sem se perder

Netflix | Divulgação

Sobre amor, espelhos e livre-arbítrio

Esta semana me deparei com um conceito bíblico que eu desconhecia ao assistir à série “A Leste do Paraíso” (Netflix), inspirada na obra homônima de John Steinbeck. Esse conceito me levou a uma reflexão profunda quando fui confrontada com uma técnica do Ho’oponopono, a filosofia havaiana que pratico há alguns anos, mas que só agora estou aprofundando. Aparentemente, os dois conceitos não têm nada em comum. Mas, como se diz no mundo do desenvolvimento pessoal, “nada é por acaso”. Fui então entender como duas palavras de origens tão diferentes se relacionam com a trama que Steinbeck nos apresenta com tanta maestria.

Timshel: a palavra que devolve o volante a você

Timshel vem do Gênesis, do momento em que Deus fala a Caim, consumido pela inveja do irmão. Conforme a tradução, a frase virou uma promessa (“dominarás o pecado”), uma ordem (“domine o pecado”) ou, na leitura que Steinbeck põe na boca do sábio criado chinês Lee, uma possibilidade: você pode. Nem o destino nem Deus nos condenam. Resta-nos o terrível e glorioso privilégio da escolha.

A série acompanha duas gerações de uma família na Califórnia: Adam Trask, marcado por um pai opressor, e seus filhos gêmeos, Cal e Aron, que repetem, quase como uma maldição, a velha história de Caim e Abel. É uma saga sobre o que herdamos e sobre o que fazemos com isso.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Cathy: quando a doçura é uma máscara

No centro de tudo está Cathy. Tendo sido terrivelmente espancada, Cathy chega à casa de Adam desfigurada e frágil, e ele a acolhe e cuida dela, contra a vontade de seu irmão. Só que Cathy é o oposto da jovem bela e de aparência doce que aparenta ser, à medida que vai se recompondo fisicamente. Cresceu entendendo que as pessoas se manipulam e que a bondade alheia é uma fraqueza a explorar. Mente sem pudor, seduz quem lhe convém, destrói quem a atrapalha, sem culpa e sem remorso, e talvez isso seja o mais perturbador. Quando Adam tenta impedi-la de ir embora e abandonar os filhos recém-nascidos, ela atira nele para fugir.

Cathy existe só na ficção?

Steinbeck buscou inspiração nas pessoas que conheceu. Sabe-se que viveu uma relação tumultuada com a segunda esposa, Gwyn, e há quem veja nela um eco de Cathy. Talvez. A família Hamilton, tão luminosa e tão diferente dos Trask, também nasceu da sua árvore genealógica: Samuel e Liza foram inspirados em seus avós maternos. O autor escreveu com o que conhecia da vida, do amor e da sua sombra. E talvez queira nos dizer que a maldade de Cathy não pertence a uma espécie à parte, e que poderia morar, em potência, em qualquer ser humano.

Você ama a pessoa ou a ideia que criou dela?

Adam não se apaixona por uma mulher, e sim por uma ideia: a pureza e a vulnerabilidade de alguém que precisava ser salva. Acreditar na bondade de Cathy era, no fundo, validar a própria capacidade de amar e escapar do passado familiar que o sufocava. Por isso, mesmo diante de provas irrefutáveis de crueldade, ele se agarra à imagem. Prefere acreditar que o amor verdadeiro, ou a sua paciência, acabará por curá-la. Cathy percebe depressa o que ele quer ver e devolve exatamente isso. É um espelho, mas um espelho de engano.

Quantos de nós já amamos assim? O lobo vem vestido de cordeiro, é verdade, mas muitas vezes somos nós que colocamos a lã nele, porque precisamos do cordeiro. A dependência emocional nasce aí: deixamos de amar a pessoa real e passamos a amar o personagem que criamos, e o medo de perder o personagem pesa mais do que o medo de sermos machucados.

O preço de abrir mão de si

Adam paga caro por essa cegueira. Abdica do livre-arbítrio e vive como se não tivesse outra opção senão esperar, sofrer e culpar o destino, fazendo de Cathy a única definidora do seu valor e da sua felicidade. A paralisia o faz deixar de viver: fica na cama, ausente, e entrega os filhos aos cuidados de Lee, tratando-os como fantasmas de um casamento fracassado.

A virada só chega quando ele visita Cathy no bordel que ela dirige e é finalmente confrontado com a realidade. O espelho se parte. E, entre os estilhaços, Adam descobre o que sempre esteve ao seu alcance: podia deixar o passado para trás, levantar-se e olhar para os filhos com amor e responsabilidade. Tinha essa liberdade desde o início: Timshel.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Ho’oponopono: limpar a memória para recomeçar

Cathy parece desafiar tudo isso. Para um observador externo, nasceu “completa” na sua frieza, sem empatia, e Steinbeck não lhe dá nenhuma desculpa biológica ou ancestral. Ela surge como o mal puro, um Caim absoluto.

É aqui que o Ho’oponopono ilumina a história. Essa prática espiritual havaiana de reconciliação, popularizada no Ocidente pelo Dr. Hew Len, ensina uma técnica chamada CEEPORT: Clean, Erase, Erase, and Port. Limpar, apagar, apagar e retornar ao “porto”, o estado zero, o lugar de pureza de onde partimos. A ideia é que nascemos puros, mas carregamos memórias pessoais, familiares e ancestrais que nos empurram para o que não queremos ser. Não somos culpadas por elas, mas somos responsáveis por não lhes obedecer. Quando uma dessas memórias surge, reconhecemos, pedimos perdão, agradecemos e a deixamos se dissolver.

Foi o que Cal precisou aprender. Ele sente em si uma escuridão que não sabe explicar e teme ter herdado a maldade da mãe. Ao confessar esse medo a Lee, ouve a resposta que atravessa o livro inteiro: a herança existe, mas não decide por você. Você pode. O Timshel afirma que a escolha existe, e o Ho’oponopono lhe dá um gesto diário.

Levado ao extremo, o Ho’oponopono diria que Cathy é alguém cujos “dados” se corromperam a ponto de ela se fundir com a memória, incapaz de reconhecê-la ou limpá-la. Talvez seja isso o mais inquietante: não a maldade em si, mas a ausência de qualquer distância entre ela e a sua sombra. Onde Cal vê a escuridão e escolhe, Cathy é a escuridão e não vê nada. Essa é a grande epifania da obra: seja qual for a herança que recebemos, o ser humano tem sempre o livre-arbítrio.

Ver não é ficar: amar sem se perder

Assumir a responsabilidade pelo nosso mundo interior não significa aceitar a crueldade do outro. Limpar nossas memórias não nos obriga a ficar ao lado de quem nos fere. O Timshel de Adam não era ficar, era ver. E é vendo que nos permite, depois, escolher partir, perdoando sem voltar.

Atribui-se a Einstein uma frase que resume bem essa lição: “Se você quer viver uma vida feliz, vincule-a a um objetivo, não a pessoas ou coisas.” Não porque as pessoas não importem, mas porque a nossa felicidade não pode ficar refém de ninguém. Quem faz de outra pessoa a única definidora do seu valor entrega a ela as chaves da própria vida, como fez Adam.

Três perguntas para fazer ao coração

Para saber se você vive uma relação de dependência emocional, pergunte-se com honestidade:

  1. Você está amando a pessoa que está diante de você ou a que imaginou? Consegue olhar para as atitudes reais dela, mesmo quando contrariam a imagem que você construiu?
  2. Se essa relação acabasse, você saberia quem é? O seu valor, os seus objetivos e a sua alegria existem sem essa pessoa, ou tudo gira em torno dela?
  3. Você justifica o que a machuca na esperança de que o amor, ou a sua paciência, a transforme? Ou aceita a pessoa como ela é e escolhe a partir daí?

Se as respostas lhe causaram inquietação não se condene. Adam também só enxergou quando o espelho se partiu. O importante é o que você faz depois.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Timshel como filosofia de vida

Vou guardar o “Timshel” não como uma palavra bíblica, mas como uma filosofia de vida. Sempre que eu sentir o peso de uma memória, de uma herança, de um padrão que insiste em se repetir, vou me lembrar de que a história não está escrita. Vou reconhecer o que surgiu, sem me culpar, e então fazer o que o Ho’oponopono ensina: limpar. Sinto muito. Me perdoe. Eu te amo. Sou grata. E, depois de limpar, vou escolher de novo.

Faço a você, caro (a) leitor (a) o mesmo convite. Da próxima vez que se pegar repetindo um padrão, idealizando alguém ou ficando onde dói, não se julgue: perceba, respire e limpe. Lembre-se de que você não é a sua memória, e que o passado, seu ou de quem veio antes de você, pode até empurrar, mas não decide por você. Você pode escolher ver. Você pode escolher limpar. Você pode escolher recomeçar.

Timshel. Você pode.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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