Skip to content

Quando a empatia desafia o nosso senso de justiça

Design Dolce sob imagem por Geralt em Canva

O que acontece quando um caso nos obriga a parar, escutar com profundidade e, por mais impensável que pareça, sentir empatia por alguém que deveria provocar apenas repulsa?

Por Paola Ferreira Mendoza

Desde cedo, somos ensinados a obedecer a uma lógica binária: bem ou mal, certo ou errado, herói ou vilão. Essa obediência cultural nos condiciona a escolher rapidamente, sem espaço para pausa ou reflexão. Vemos esse cenário repetidamente nas redes sociais. As pessoas se posicionam a favor de uma versão da história que está viralizada, sem se atentar ao outro lado envolvido. E, em um instante, há uma legião decretando sentenças.   

Mas, o que acontece quando um caso nos obriga a parar, escutar com profundidade e, por mais impensável que pareça, sentir empatia por alguém que deveria provocar apenas repulsa? 

Design Dolce sob imagem por Kris Cole em Canva

No livro Apenas Uma Sessão, compartilho relatos reais que surgiram durante um único encontro de terapia em grupo. Entre eles, está o de uma jovem colombiana de 12 anos, que descobre, pela televisão, que o maior assassino em série da década no Reino Unido seria libertado. Movida pela indignação, resolve escrever-lhe, determinada a expressar todo o desprezo que sentia. Para sua surpresa, a resposta não apenas veio, como deu início a uma troca de mensagens capaz de transformar sua percepção, e também a nossa. 

O homem, Monroe Cameron, havia sido dependente químico por anos. Em recuperação, conheceu uma mulher que acreditou em sua mudança. Casaram-se e, pouco depois, nasceu o filho que se tornaria sua maior razão de viver. Mas, aos cinco anos, a criança faleceu, vítima de uma doença rara. Tomado por uma dor insuportável, Cameron viveu um surto. No cemitério, alucinado pelo luto, teve a visão do filho lhe dizendo que, se ele tirasse a vida de cinco crianças, poderia tê-lo de volta. E assim, perdeu-se por completo. 

Design Dolce sob imagem por Africa Images em Canva

Não se trata de buscar justificativas, tampouco de suavizar a gravidade dos atos. A proposta é outra: compreender até onde a dor é capaz de levar alguém. A lógica do outro pode parecer absurda, e muitas vezes realmente é, mas ainda assim somos tocados por uma empatia inesperada. Porque matar é inaceitável, até que surge uma história tão brutal e humana que desafia as fronteiras do nosso julgamento. É o caso, por exemplo, dos Irmãos Menendez, cuja história hoje é vista de uma nova perspectiva. 

Esses relatos nos lembram o quanto somos influenciáveis, e como, quase sem perceber, somos levados a escolher lados o tempo todo. Mas e se, por um instante, não escolhêssemos? E se apenas escutássemos? 

Quebrar o ciclo do julgamento automático talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Mas é nesse esforço, no ato corajoso de escutar sem pressa, sem filtro e sem sentença, que reside a possibilidade de enxergarmos o outro em sua inteireza. Entender o outro não é renunciar à justiça, e sim ampliá-la para além da punição: é fazer dela também um espaço de humanidade. 

Publicidade | Dolce Morumbi®

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Paola Ferreira Mendoza é tradutora literária, com formação em jornalismo. Nascida em Montevideo, no Uruguai, vive atualmente em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Fez sua estreia na literatura ao ganhar o concurso promovido pela editora argentina Dunken ao participar da antologia poética Reuñión. O livro Apenas Uma Sessão é sua primeira obra em prosa.

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

Toda mulher precisa saber disso!

O acordo interno que muitas mulheres fazem e não percebem: negociar com seus medos

A engenharia da conexão

Como a empatia estruturou minha liderança e destravou resultados

Novelas verticais ganham versão brasileira com “Sabor de Família”

Uma novela vertical que mistura emoção, tradição e conflitos familiares no formato que está conquistando o público mobile

O vazio dos sentidos e o teatro da virtude

Por que precisamos de uma plateia para validar nossa existência e como resgatar o gosto da vida fora do espetáculo?

O Diabo Veste Prada e muito poder

Nem sempre o salto alto é sobre moda. Às vezes, é sobre posicionamento.

“O autismo não tem cara”: Heitor Werneck denuncia psicofobia e capacitismo contra pessoas no espectro

Campanhas educativas, debates públicos e a escuta das próprias pessoas autistas são, segundo ele, caminhos fundamentais para construir uma sociedade mais inclusiva

A morte da minha versão

Crescer desorganiza, mexe, estica, confronta

Dia das Mães: o motor bilionário do primeiro semestre

Apesar de não haver uma projeção oficial divulgada, a tendência para 2026 é de novo crescimento

Einstein abre inscrições para vestibular de meio de ano da graduação em Enfermagem

Curso com nota máxima no MEC oferece formação prática desde o primeiro ano, com início das aulas no segundo semestre

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

publ-gisele-ribeiro-reiki-16.10.25-1-1
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções