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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

A morte da minha versão

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Crescer desorganiza, mexe, estica, confronta

Tem dias em que a gente se olha no espelho e não se reconhece.

E a primeira reação é estranhar. Questionar. Até rejeitar.

“O que aconteceu comigo?”

Mas a verdade, querido leitor e querida leitora, é que quase nunca é perda.

É transformação.

Ninguém fala muito sobre essa fase.

Aquela em que deixas de ser quem eras, mas ainda não te sentes totalmente quem estás a tornar-te.

É desconfortável.

É silencioso.

E, às vezes, profundamente solitário.

Porque crescer não é bonito todos os dias.

Crescer não é estético.

Crescer desorganiza, mexe, estica, confronta.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Crescer obriga-te a abandonar versões tuas que eram mais fáceis de carregar, mas que já não te representam.

E isso dói.

Dói perceber que já não encaixas em certos lugares, em certas conversas, em certas relações.

Dói entender que algumas pessoas estavam ligadas à tua versão antiga e não à pessoa que estás a tornar-te.

Mas também liberta.

Liberta quando entendes, querido leitor, querida leitora, que não estás perdido — estás em construção.

Que não estás atrasado — estás a alinhar.

Que não estás “demais” — estás, finalmente, a ser inteiro.

E há uma força absurda nisso.

Na pessoa que continua, mesmo cansada.

Na pessoa que se reconstrói, mesmo sem aplausos.

Na pessoa que decide não voltar para o que já não serve — nem por conforto.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Porque, no fundo, há um ponto de viragem.

Aquele momento em que deixas de tentar voltar a ser quem eras e assumes, com coragem, quem estás a tornar-te.

Sem pedir desculpa.

Sem tentar caber.

Sem se diminuir para ser aceite.

E quando isso acontece, já não há retorno.

Porque quem se encontra no meio do próprio caos não se abandona nunca mais.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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