Por Izoé Daysi Pedroso
A importância dada ao resgate de uma memória de infância e a autopesquisa me ajudaram a compreender que a realidade vai muito além das obviedades. Nasci no interior de Santa Catarina. Meu irmão nasceu um ano e quatro meses depois de mim e enfrentou sérios problemas de saúde até os dois anos de idade. Por conta dessa dinâmica familiar, eu passava longos períodos na casa de conhecidos e de uma professora, vizinha da minha mãe.
Na casa havia uma enorme biblioteca repleta de gibis, revistinhas e livros de todos os tipos. Eu costumava ficar quatro ou cinco dias seguidos na casa dela. Se me perguntarem se eu sentia saudades de voltar para o meu lar, honestamente não lembro; o ambiente era tão acolhedor e instigante que eu era genuinamente feliz ali.
Recordo-me perfeitamente de uma sexta-feira em que minha mãe foi me buscar. Tia Gini, a professora, conversando com ela na garagem, sugeriu:
– Deixe ela mais uns dias aqui.
Minha mãe respondeu prontamente:
– Não, hoje já é sexta-feira, ela já está aqui há quatro dias.
Foi então que a professora olhou para ela e disparou uma frase que ecoa em mim até hoje:
– Você sabe que essa filha não é sua, não é? Você sabe que ela nasceu para o mundo.
Minha mãe, corroborando com o que ouvia, completou:
– Ela não é para essa vida. Ela não é daqui.

Ambas concluíram que eu não pertencia àquele modelo padrão de sociedade em que vivíamos; eu era “mais do que aquilo”. Elas não se alongaram no assunto. Acredito que, no fundo, pressentiam o meu futuro, mas eu tinha menos de cinco anos e elas não quiseram traçar linhas definitivas antes da hora.
Rememoro aquele dia como se fosse hoje. Elas na garagem, o sol lindo das dez horas da manhã iluminando a cena, as roupas de outono que vestíamos e a sacolinha com poucas coisas que eu carregava para voltar para casa.
Por que essa história me trouxe até aqui hoje, após mais de quatro décadas? Porque aquele diálogo, vira e mexe, me faz questionar se o mundo ao qual pertenço cabe na caixinha onde tentam me colocar. De onde vim? Para onde vou? O que estou fazendo aqui? Essas são perguntas filosóficas iniciadas ainda no período pré-socrático do século VI a.e.c. Nada de novo sob o sol, e você, leitor, provavelmente já está respondendo a elas mentalmente, afinal, enquanto ser pensante, é natural questionar a própria realidade.
No entanto, com o aprofundamento nos estudos da Conscienciologia, a ciência que estuda a consciência de modo integral, passei a dar um valor técnico a um dos pilares do paradigma consciencial: a autopesquisa. Trata-se da investigação científica e técnica que a própria consciência (ego, alma, espírito) faz sobre si mesma.
Para realizar essa investigação detalhada, gosto de associar a ela a aplicação da técnica do detalhismo, que me ajuda a aprofundar as premissas básicas que sustentam essa autoinvestigação singular.

A Conscienciologia amplia as variáveis da autopesquisa ao adotar o Paradigma Consciencial, ao exemplo das variáveis abaixo:
- Holossoma: nome dado ao conjunto de veículos de manifestação do autopesquisador e, por isso, não avalia apenas o próprio corpo físico (soma). O autopesquisador observa suas energias e promove a higiene do energossoma; estuda suas emoções usando o psicossoma para pesquisar ocorrências até mesmo fora da matéria; e analisa os próprios pensamentos e ideias por meio do mentalsoma, valendo-se do discernimento puro para as tomadas de decisão.
- Multidimensionalidade: a autopesquisa coleta dados a partir da atuação da consciência em múltiplas dimensões, seja usando um dos corpos mencionados para se manifestar (soma, energossoma, psicossoma, mentalsoma), por intermédio de fenômenos parapsíquicos ou de projeções lúcidas, popularmente também conhecidas como viagens astrais.
- Serialidade ou multiexistencialidade: a análise considera que nossas características, virtudes e/ou bloqueios atuais são frutos de múltiplas vidas passadas. Somos hoje a soma de tudo o que realizamos em nossas retrovidas.
Agora você deve estar se perguntando: “Izoé, qual a relação entre o que você estuda na Conscienciologia e a fala da sua mãe e da vizinha quando você tinha menos de cinco anos?”
Veja bem: ainda em tenra idade, eu já evidenciava um padrão de manifestação singular para o meu contexto familiar e mesológico. Eu mostrava evidências claras de um comportamento fora do comum. E por que tudo isso faz tanto sentido para mim hoje? Porque, em vidas passadas, desenvolvi um nível de autoliderança evolutiva que foi capaz de se expressar nesta atual existência, mesmo sob condições diferentes daquelas aprendidas no núcleo doméstico.
Mesmo sendo tão pequena, amparada pelo olhar atento e pela liberdade que meus pais me davam para me autogerenciar, eu já apresentava traços marcantes:
• Autocriticismo: questionava as verdades absolutas na família, na escola e ao redor das pessoas.
• Autoobservação contínua: mantinha uma atenção desperta sobre tudo o que acontecia ao meu redor, tanto que recordo a fala da minha mãe com a vizinha.
• Autodomínio emocional: demonstrava maturidade precoce na gestão das emoções e na busca pelo equilíbrio.
• Empatia e lucidez: compreendia perfeitamente as dificuldades que minha mãe enfrentava para cuidar da saúde do meu irmão.
• Cosmoética: adotava uma postura correta e intenções sadias, superando posturas egocêntricas ou de vitimização para focar no aprendizado da experiência.

E, talvez, o ponto mais decisivo: sempre fui parapsíquica. Via e escutava consciências extrafísicas além da dimensão material e tinha projeções lúcidas. Nunca tive medo desses fenômenos; de certo modo, minha consciência compreendia que as consciências extrafísicas apenas se manifestavam com outro corpo, na dimensão extrafísica, além da matéria. Por causa dessa naturalidade, eu passava por essas experiências sem aterrorizar as pessoas ao meu redor.
Compreender que não cabemos em caixas sociais ou familiares nos liberta para exercer a verdadeira autoliderança evolutiva. Minhas vivências na infância e o parapsiquismo técnico me mostraram que somos o resultado maduro de nossas vidas passadas. Quando aplicamos a autopesquisa no nosso dia a dia, deixamos de ser vítimas das circunstâncias e passamos a ser os arquitetos da nossa evolução consciencial.
Olhando para trás, percebo que aquela sacolinha de outono que eu carregava na primeira infância continha muito mais do que pertences pessoais: trazia a bagagem invisível de quem eu realmente sou na minha melhor versão. A fala daquela professora não foi uma previsão, mas um diagnóstico de uma realidade multidimensional.
E você, que me lê agora? Conseguiria identificar quais traços da sua infância são capazes de denunciar características da sua autoliderança evolutiva? O convite que faço é simples, mas desafiador: permita-se sair da caixinha do óbvio, buscar informações sobre a própria História com olhar de autopesquisador e descubra o tamanho do mundo que realmente pertence a você.
Afinal, se nascemos para o mundo, que sejamos líderes lúcidos da nossa própria jornada.
Referências Bibliográficas
VIEIRA, Waldo; Nossa Evolução; 3ª Ed.; Associação Internacional Editares; Foz do Iguaçu, PR; 2010. Disponível gratuitamente em: https://editares.org/nossa-evolucao/.
Detalhismo; Verbete; In: Vieira, Waldo; Org.; Enciclopédia da Conscienciologia; defendido no Tertuliarium do Centro de Altos Estudos da Conscienciologia (CEAEC); Foz do Iguaçu, PR; disponível gratuitamente em: https://arquivos.enciclopediadaconscienciologia.org/verbetes/Detalhismo.pdf.





























