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O que estamos ensinando aos homens sobre sentir?

Design Dolce sob imagem por cyano66 em Canva

Com homens representando 75% das mortes por suicídio no mundo, cresce a reflexão por uma criação que permita aos meninos sentir, chorar e pedir ajuda

Chorar, expressar tristeza, sentir medo. Para muitos meninos, essas atitudes ainda são vistas como sinal de fraqueza. Frases como “engole o choro”, “menino não chora” e “seja homem” continuam sendo reproduzidas em casas e escolas, refletindo um modelo ultrapassado de masculinidade. Neste 15 de julho, Dia do Homem, uma reflexão se torna cada vez mais urgente: como estamos educando nossos meninos, dentro e fora de casa?

Homens têm menor tendência a buscar ajuda psicológica. Segundo o documento “Suicide worldwide in 2019: Global Health Estimates”, a taxa global padronizada por idade foi de 12,6 por 100 mil para homens e 5,4 por 100 mil para mulheres, ou seja, os homens têm uma taxa de suicídio aproximadamente 2,3 vezes maior que as mulheres. Em países de alta renda, essa razão chega a pouco mais de 3 para 1. 

No Brasil, um estudo publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública mostra que, entre 2000 e 2017, a taxa de suicídio entre homens variou de 6,5 para 11,3 por 100 mil habitantes, enquanto entre mulheres foi de 1,6 para 3,0 por 100 mil, confirmando que a taxa entre homens é cerca de quatro vezes maior. 

O tabu em torno da saúde mental masculina está enraizado em estereótipos (muitas vezes religiosos) que associam masculinidade à força, independência e resistência emocional, dificultando a expressão de sentimentos e o acesso a cuidados.

A repressão emocional masculina tem raízes culturais profundas. Historicamente, meninos foram ensinados a associar virilidade à dureza emocional. Mas, à medida que crescem os índices de sofrimento psíquico entre homens, torna-se urgente repensar esse modelo.

Quando ensinamos meninos a silenciar suas emoções, estamos negando a eles uma parte fundamental da experiência humana. Isso pode gerar adultos emocionalmente bloqueados, com dificuldades de relacionamento e maior propensão a problemas como ansiedade, depressão e agressividade”, explica a psicanalista e presidente do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino (Ipefem), Ana Tomazelli.

Design Dolce sob imagem por Alejandro Prinpato em Canva

Propostas pedagógicas inovadoras ganham espaço

Diante desse cenário, instituições de ensino e educadores vêm implementando metodologias que contemplam a educação emocional dos meninos de forma mais consciente. Ana Tomazelli aponta estratégias já adotadas por diversas organizações com resultados positivos:

  • Rodas de conversa regulares sobre emoções e sentimentos
  • Seleção de literatura infantil com personagens masculinos sensíveis e diversos
  • Atividades artísticas e expressivas acessíveis a todas as crianças
  • Capacitação de educadores sobre masculinidades saudáveis e não tóxicas

Ao implementar essas práticas, é possível observar meninos mais empáticos, com melhor capacidade de comunicação e relacionamentos mais ricos com colegas e familiares”, destaca Tomazelli.

O que dizem os especialistas

Para Ana, homens emocionalmente inteligentes tendem a ser pais mais presentes, parceiros mais empáticos e líderes mais eficazes. “Estamos formando uma geração que pode quebrar ciclos de violência e construir relacionamentos mais saudáveis”, reforça.

Segundo ela, algumas práticas estratégicas que podem ser incorporadas desde a infância incluem: validar todas as emoções das crianças, independentemente do gênero; oferecer modelos masculinos diversos (não apenas o “forte e provedor”); estimular brincadeiras que desenvolvam empatia e cuidado; e questionar comentários que limitem a expressão emocional.

Design Dolce sob imagem por York Foto em Canva

No mercado de trabalho

A repressão emocional não termina na infância — ela se manifesta também no ambiente profissional. Um levantamento da GQ Brasil, realizado pelo Instituto Ideia com 2.000 homens, revelou que 80% nunca frequentaram terapia, mesmo que 74% relatem ansiedade e 83% relatem estresse. O dado reforça os padrões tradicionais que incentivam os homens a “segurar a barra sozinhos”.

Em uma discussão na plataforma Reddit, um usuário resume o pensamento de muitos: “Homens não procuram tratamento porque acham que isso é coisa de mulherzinha ou fraqueza.”

Segundo relatório da OMS, nas Américas os homens vivem 5,8 anos a menos do que as mulheres e são mais suscetíveis a doenças crônicas, violência, acidentes e suicídio — todos fatores ligados à construção social da masculinidade. 

Iniciativas que fazem a diferença

Algumas empresas vêm respondendo a esse desafio com ações concretas. Programas internos têm promovido uma cultura de cuidado, com grupos de apoio, palestras sobre saúde mental masculina, treinamentos sobre masculinidades saudáveis e incentivo ao autocuidado. Quando os homens se sentem acolhidos e autorizados a expressar suas emoções, observa-se melhora no clima organizacional, aumento da produtividade e maior engajamento das equipes.

A educação emocional masculina não é apenas uma questão individual, é um investimento coletivo no futuro. “Ao ensinar meninos a reconhecer, nomear e expressar seus sentimentos desde cedo, estamos ajudando a formar adultos mais resilientes, empáticos e mentalmente saudáveis. Isso se traduz em menos casos de depressão, menos famílias afetadas pelo silêncio e, num cenário mais amplo, menos mortes evitáveis por suicídio”, afirma Ana.

Neste 15 de julho, Dia do Homem, o convite é claro: que pais, mães, educadores, líderes e a sociedade como um todo reflitam:

  • Estamos ensinando aos meninos que é corajoso sentir?
  • Estamos permitindo que eles falem sobre suas dores e alegrias sem julgamento?
  • Estamos construindo ambientes onde a vulnerabilidade é bem-vinda?

A masculinidade do futuro pode, e deve, ser plural, sensível e integral. Criar meninos livres para serem inteiros é abrir caminho para homens livres para serem humanos”, finaliza Ana Tomazelli.

Ana Tomazelli é presidente do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino (Ipefem)

@anatomazellioficial | @ipefem | LinkedIn/Ana Tomazelli

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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