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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Cardápio de botequim

Ilustração de Ana Helena Reis feita a crayon sobre papel canson

Uma amiga, incomodada com a dificuldade de encontrar as opções oferecidas para o prato do dia, me despertou para os significados que um menu tradicional em papel carrega

Vivemos na era digital e ainda estamos tentando assimilar o que ela traz de facilidades e de complicações para quem nasceu na era da inteligência analógica. É uma relação de atração e repulsa, pois ora nos encantamos com a facilidade que os avanços da IA nos proporcionam, ora nos irritamos profundamente com a falta de um interlocutor de carne e osso.

Para aqueles que, apesar de não serem nativos digitais, fizeram um esforço de aprendizado e migração para o uso dos recursos tecnológicos, a facilidade de não ter que enfrentar as filas bancárias para fazer um simples pagamento que pode ser feito pelo cartão virtual no smartphone, de fazer uma pergunta para os assistentes que usam IA para reconhecimento de voz, ou mesmo de poder armazenar tudo o que é importante na nuvem, provoca uma sensação de modernidade inebriante.

Não sei dizer qual o percentual de pessoas nascidas na era não digital que mergulham com a cara e a coragem nessa aventura de lidar com os novos recursos na base do ensaio e erro, como fazem até as criancinhas da nova era. Tímidos, os analógicos procuram os manuais, de preferência em papel, pois quando recorrem a um tutorial no YouTube, por exemplo, acham quase impossível seguir o passo a passo indicado.

Manuais físicos são, realmente, jurássicos e totalmente dispensáveis, pois hoje a maioria dos equipamentos é plug and play e qualquer informação extra que seja necessária é facilmente encontrada na Internet.  Mas existem alguns prazeres no tradicional papel que são insubstituíveis.

É o caso dos livros, por exemplo. Manusear as páginas, sentir o perfume que nele se instala pela convivência na sua biblioteca, identificá-los pelo colorido da orelha, poder deixar um marcador com significado em algum trecho que gostaria de destacar, reler a dedicatória que o autor fez, quando é o caso, são prazeres que o livro digital não consegue igualar.

Uma amiga, com quem fui almoçar recentemente, incomodada com a dificuldade de encontrar as opções oferecidas para o prato do dia, me lembrou de outro exemplo de registro em papel que envolve um prazer que estamos perdendo com os cardápios digitais. Medida muito louvável durante o período da Pandemia de Covid-19 para evitar a contaminação, eles acabaram sendo incorporados por uma grande parte dos restaurantes, com acesso pelo celular via o malfadado QRC.

Esse incômodo que ela sentiu me despertou para os significados que um menu tradicional em papel carrega.  Independente do formato ou grau de sofisticação, ele tem uma magia que aguça a curiosidade, fazendo com que nossos sentidos se alvorocem na antecipação do tempero, do aroma de cada prato, do colorido das harmonizações, o que torna a escolha uma cerimônia a ser degustada com prazer. Um encontro entre o que é oferecido e o que nosso paladar espera encontrar naquele momento, ao passar os olhos para frente e para trás nas descrições dos pratos.

Na hora do pedido, ele está em nossas mãos e nos leva a interagir com o garçom, a descrever o prato, estabelecendo uma relação íntima com ele. Já no caso do cardápio digital, a relação é fria, distante, dá a impressão de estar lendo uma bula de remédio, e ao fazer o pedido, muitas vezes apontamos com o dedo o prato escolhido ou o número que vai ao lado dele como identificação e é só.

Ainda não tinha pensado nisso, mas até me deu uma certa nostalgia, uma vontade de cantar com Noel…

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa

Uma boa média que não seja requentada

um pão bem quente com manteiga à beça,

um guardanapo e um copo d’água bem gelado

Imagem por Junius, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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