E você, nega o que?

Paulo Maia

A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando nada.

William Shakespeare

Termos e expressões são criados de tempos em tempos para definir um fenômeno do momento, um acontecimento e, por vezes, tendências de comportamentos que vão se tornado populares e comum. De uns tempos para cá estamos nos defrontando com o termo “negacionismo”. Está em voga nos feeds das Redes Sociais e invadindo a mentalidade de muita gente, e segundo consulta  a Wikipédia, negacionismo “é a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável”, que talvez seja “provocado por diversos motivos, como crenças religiosas, proveito próprio ou como um mecanismo de defesa contra pensamentos perturbadores”.

Sim, parece que de tempos em tempos, aparece algo no léxico diário para ser incluso no dicionário do momento. Pois é, já não bastava estarmos lidando com as tais fake news há algum tempo, vimo-nos agora diante de mais uma idiossincrasia como se não tivéssemos problemas reais para lidar. Aliás, parece sarro, mas uma vez que fake news é fabricação, negá-la se enquadra no conceito acima do negacionismo? Olha só as enrascadas que a falta do que fazer nos leva, não?

Mas a tendência de negar a realidade é mais preocupante do que simplesmente acreditar em falsos fatos. Algo acontece diante de seus olhos, indiferente à sua existência, diga-se de passagem, e você, ao invés de tentar entender o que se passa e o que aquilo vai implicar na sua vida, prefere interpretar de forma que lhe dê mais conforto e que caiba dentro de suas crenças e “verdades”. É mais do que uma brincadeira do “faz-de-conta”, na qual uma realidade alternativa que conta com sua imaginação, se faz presente. É um comportamento mais doentio, pois até a mais tola das crianças sabe que o que ela está fazendo é uma ilusão, uma brincadeira e que terminará quando seus pais a chamarem para jantar ou dormir.

Negar uma realidade ou um fato ocorrido e, pior, buscar encaixá-la em uma narrativa que lhe seja mais propícia é uma atitude que mostra o quanto você pode estar sendo manipulado (com os tais “pensamentos perturbadores” ou contra eles) ou agindo de pura má fé (para “proveito próprio”).

Sim, claro, as coisas às vezes não são o que aparentam ser. Mentimos, fantasiamos e manipulamos coisas e pessoas. São atos humanos e balizam relações sociais e modos civilizatórios. Funcionamos assim. Criamos mundos para entendermos nosso papel entre nossos semelhantes e principalmente, para sobrevivermos à contingência que nos avassala e que, na maioria das vezes, simplesmente escapa à nossa capacidade de compreensão.

Mas justamente por tudo isso é que a realidade e, essencialmente, as intenções humanas, precisam ser investigadas e, regularmente checadas. O que era ontem, continua sendo hoje? Afinal, disso depende nossa existência. Tudo bem, se esconder dentro de uma negativa também é uma forma de sobreviver, mas – do meu ponto de vista – muito mais perigosa, pois lhe dá justamente a falsa ideia de que está no controle, quando isso, verdadeiramente, não existe, de fato. Corremos riscos o tempo todo e não estar alerta ao que está ao seu redor é estar à deriva. Confiar em algo ou alguém nos ajuda muito, mas custa muito caro. Para saber seu valor, basta lembrar o quanto você sofreu com a perda da confiança ou quando esta lhe foi tirada por alguém de sua estima.

Usar um pouco a filosofia de martelo de Nietsche, de tempos em tempos, é fundamental para que a gente acompanhe o tempo e nossas convicções. Martele todo dia naquilo que acredita. Se não rachar ou quebrar, ok, continue em frente. Se a realidade já não se apresenta mais como você a via, é porque algo mudou, seja em você ou no exterior. E aí, então, é hora de edificar outra coisa para por no lugar. Negar, ou simplesmente não querer ver que algo está acontecendo, pode levar você à falência, quando se trata de negócios, à dissolução da família, quando prefere não identificar sinais da falta de amor ou de aumento de violência e intolerância e do distanciamento de amigos quando estes percebem que a realidade que você vê, não se encontra lá fora. E em lugar nenhum.

Muitas vezes, somos hóspedes de um mundo hostil criado apenas para nos manter aprisionados à sanha de alguém que não somos.

E então, você nega o quê?

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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