Skip to content

A última das liberdades

Design Dolce sob imagem por Andrey Popov em Canva

Escolher nossa atitude diante de qualquer circunstância e escolher o nosso próprio caminho é, segundo o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, a última das liberdades humanas

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Por Tânia Lins

O cheiro acre confundia-lhe os sentidos. Confinado naquele espaço diminuto, era-lhe impossível enxergar a imensidão do oceano. Quantos dias mais tardaria até chegar à terra firme? Curvado em um canto, numa tentativa vã de acalmar o oco no estômago, o homem — saudoso do passado e temeroso quanto ao futuro — aguardava seu destino.

Naqueles longos dias de espera e sofrimento, buscava, na teoria apreendida nos anos de estudo sobre a mente humana, uma razão para não se entregar ao desânimo que esmagava sua fé. Quantas vezes havia se colocado em situações hipotéticas para melhor compreender as pessoas as quais auxiliava como psicólogo? Agora, ele próprio estava numa situação-limite, atormentado por dúvidas. Mas o que estava buscando? Uma razão para não sucumbir — essa foi a resposta imediata.

Tudo pode ser tirado de um homem, menos a última das liberdades humanas: escolher nossa atitude diante de qualquer circunstância e escolher nosso próprio caminho”. A reflexão surgiu em sua mente ao lembrar-se do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, autor do best-seller internacional Em busca de um sentido (1946), no qualrelata sua experiência em campos de concentração durante o regime nazista.


No best-seller internacional Em busca de um sentido, o autor relata sua experiência em campos de concentração durante o regime nazista.

A leitura, feita anos antes, não lhe pareceu razoável à época, como se o autor tentasse atenuar um sofrimento sem precedentes. “O pintor procura transmitir-nos uma imagem do mundo como ele o vê; o oftalmologista procura capacitar-nos a enxergar o mundo como ele é na realidade”. Agora, diante daquela perspectiva, vendo a si próprio em uma realidade angustiante, desprovido de condições básicas para sua subsistência, as palavras do psiquiatra começaram a fazer eco em sua alma. Sim, há de se viver para sentir.

Estar em seu país não era mais seguro; os conflitos armados faziam milhares de vítimas diariamente. E ele não estava sozinho, ainda que à sua volta os rostos expectantes fossem desconhecidos.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) aponta que, nos últimos doze anos, houve um aumento significativo de pessoas que foram forçadas a se deslocar de seus países de origem. A estimativa é de que esse número chegue a 120 milhões de pessoas no mundo e 800 mil no Brasil. O número de refugiados oficialmente reconhecidos sob mandatos do ACNUR e da UNRWA está em torno de 43,4 milhões.

Design Dolce sob imagem por Claudiad em Canva

À deriva, essas pessoas não tinham como voltar atrás. As condições de vulnerabilidade (geográfica, política e social, dentre outras), que as empurravam para frente, estavam carregadas de desafios — adaptação a uma nova cultura, aprendizado de outro idioma, a ausência de entes queridos, perda da própria identidade, uma vez que sempre serão vistas como “não pertencentes”, o que nos remete a episódios de xenofobia tão constantes em um mundo que ainda não compreende que fronteiras deveriam ser pontes, não muros ou cercas.

Escrita em apenas nove dias em 1946, a obra Em busca de um sentido, além de ser um corajoso relato sobre a experiência do autor ao ser submetido a condições desumanas, com privações físicas extremas e torturas psicológicas indescritíveis, nos traz explicações sobre a Logoterapia — também conhecida como Terceira Escola Vienense de Psicoterapia —, uma abordagem terapêutica que tem como pilar a busca do sentido da vida como força motriz do ser humano. A Logoterapia reconhece a dimensão espiritual (não religiosa) e a liberdade interior do indivíduo, enfatizando que, mesmo diante de um sofrimento extremo, é possível configurar a própria existência de forma que ela tenha significado até o último suspiro.

Diante de traumas profundos, rupturas culturais e sociais, muitos enfrentam um vazio existencial e dificuldades para reencontrar um significado na própria trajetória; são feridas, algumas invisíveis, que ainda sangram. Nesse cenário, a Logoterapia propõe recursos sensíveis para trabalhar essas questões, incentivando o indivíduo a descobrir um propósito genuíno para a construção de uma vida que, mesmo em meio ao sofrimento, possa ser — e é — repleta de significado.

Design Dolce sob imagem por ajfilgud em Canva

Em um estado de extrema fragilidade, marcado pela ganância e brutalidade ainda tão recorrentes na sociedade contemporânea, alimentar a resiliência e a esperança traduzem-se em um ato heroico, uma forma de insubmissão diante das adversidades. Escolher lutar pela sobrevivência, sustentado pela certeza de que a vida tem um propósito, é o que afirma nossa humanidade. 

Ele, num esforço para não desistir de tudo, acostumado a usar sua mente analítica, capturou mais uma citação de Frankl: “O homem não deve perguntar qual o sentido da vida, mas sim reconhecer que é ele quem está sendo questionado pela vida”.

Ao lembrar-se da situação vivida pelo psiquiatra no campo de concentração, ele não tinha a intenção de comparar dores — não era esse o caso. A questão presente era o que motivava alguém a transcender a própria dor, ressignificando episódios traumáticos. “Aquele que tem um porquê para viver, pode suportar quase qualquer como”. A reflexão de Friedrich Nietzsche, citada por Viktor Frankl, enfatiza a força transformadora que um propósito maior tem em nossa existência. A história está repleta de relatos comoventes sobre superação. Viver por alguém, para alguém, por uma causa, uma missão é o que nos move diariamente.


Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, circa 1875.
Foto por Friedrich Hartmann, Public domain, via Wikimedia Commons

Foi o que aquele homem fez quando decidiu mudar de país, pois permanecer havia se tornado impossível. Poderia ter sido somente um dia como tantos outros, mas suas escolhas modificaram o rumo dos acontecimentos.

Decidido, ele ergueu a cabeça e sentiu o calor de um raio de sol, passageiro discreto num abril que surgiu no calendário naquela manhã. 

Ao responder à vida — fosse para ter segurança, cumprir uma missão ou manter sua dignidade —, aquele homem deu à própria história novos contornos, mesmo diante dos desafios trazidos pelos ventos do flagelo humanitário. Agora, só lhe restava conservar a esperança de que a nova terra fosse um verdadeiro refúgio — solo de segurança e oportunidades —, acolhendo aqueles que carregam a dor do exílio no corpo e no coração.

Tânia Lins é bacharel em Administração de Empresas, licenciada em Letras e pós-graduada em Língua Portuguesa e Comunicação Empresarial e Institucional. Atua há mais de quinze anos no mercado editorial, com experiência profissional e acadêmica voltada à edição, preparação e revisão de obras, gerenciamento de produção editorial, leitura crítica e análise literária. Atualmente, é coordenadora editorial na Editora Vida & Consciência.
@vidaeconsciencia

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

Planos e metas alimentares

Uma alimentação vindo daquilo que é natural e diretamente da terra é a visão mais clara da nova pirâmide

Nada será como antes

A antevisão de um final, seja da vida terrena em si, ou de qualquer coisa a que nos apegamos, pode ser angustiante

Dia Internacional do Fetiche: Spicy Club comemora a data com edição especial da Circus RolePlay

Evento acontece no dia 16 de janeiro de 2026 e propõe uma experiência imersiva, sensorial e inclusiva para praticantes, curiosos e iniciantes do universo fetichista

Serra Negra, o charme do interior paulista que virou destino de bem-estar

As montanhas que cercam a cidade ajudam a manter o clima ameno durante todo o ano e proporcionam mirantes espetaculares

8 dicas para ensinar educação financeira para crianças e jovens

Pesquisa revela que 91% dos brasileiros não tiveram educação financeira na infância, mas gostariam de ter recebido esse aprendizado

Waldo Bravo expõe “Duchamp revisitado”

Uma oportunidade para as pessoas verem ou revisitarem seus conceitos de uma forma nova, criativa, irreverente e com humor

Rito de Jan

Só você sabe me tirar o chão com um toque e me ensinar o céu com um suspiro

A invasão e a prisão do presidente da Venezuela pelos EUA são legítimas ou ilegítimas?

Acontecimentos que expuseram uma zona cinzenta onde princípios tradicionais entram em choque sobre segurança, legitimidade política e combate a regimes autoritários

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

publ-gisele-ribeiro-reiki-16.10.25-1-1
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções