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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Therian: espanto no parque

Ilustração por Ana Helena Reis feita em guache preta e branca em papel canson

Descobri que não é fantasia, nem seita, nem performance artística

Semana passada, no parque, me deparei com um grupinho de adolescentes usando máscaras de felinos. Saltavam, subiam em troncos, miavam uns para os outros.

A princípio, achei que fosse ensaio da escola — alguma versão alternativa de Cats, quem sabe. Mas logo vi que não era teatro. Eles se enroscavam nas árvores, ronronavam e se olhavam com uma intensidade… estranha.

Curiosa — ou ligeiramente assustada — abordei um garoto que ria da cena.
— Isso aí? Therian. São assim mesmo. Uns doidinhos.

Therian? Fingi que entendi, mas corri pro Google assim que cheguei em casa. E lá estava: Therians são pessoas que se identificam com um animal. De verdade. Lobo, gato, corvo. Nada de dragão ou sereia.

Descobri que não é fantasia, nem seita, nem performance artística. Eles dizem sentir a alma animal dentro de si. Alguns uivam, outros arranham. E muitos usam orelhas, caudas falsas, ou simplesmente se comportam como bichos — por dentro e por fora.

A coisa foi ficando mais curiosa. Lembrei dos antigos rituais com máscaras de animais — os xamãs, os espíritos-guia, os totens. Mas ali havia uma diferença: no xamanismo, o animal é um visitante. No therianismo, ele é morador fixo.

Fiquei pensando se estamos voltando a algo ancestral ou avançando para algo ainda mais estranho. Seria isso um eco das florestas ou só mais um produto do Second Life, dos avatares e da vida líquida?

Segundo meu oráculo moderno (vulgo GPT), existem entre 100 mil e 250 mil Therians no mundo. No Brasil, estima-se de 3 a 10 mil. Ou seja: se você vir alguém farejando uma árvore, talvez seja só um adolescente em fase de descoberta…

É ou não pra deixar as orelhas em pé?

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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