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A Copa de 2026 revelou um jogo que vai muito além do futebol

Enquanto milhares de pessoas olhavam para o jogo, outras decisões continuavam sendo tomadas fora do campo
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Quanto maior a relevância de uma organização, maior também passa a ser o número de interesses que está ao seu redor

Por Arnaldo Reis Figueiredo

Durante anos, acostumei-me a enxergar a Copa do Mundo como um daqueles raros momentos em que tudo parece girar em torno do futebol. Durante algumas semanas, as conversas mudam, os horários são reorganizados e pessoas que normalmente não acompanham o esporte passam a discutir escalações como se sempre tivessem feito isso.

Com a Copa de 2026, imaginei que aconteceria o mesmo. Mas, em determinado momento, percebi uma mudança curiosa. Eu terminava um jogo e, antes mesmo de procurar os melhores lances, acabava lendo notícias sobre imigração, reuniões diplomáticas, segurança internacional, acordos comerciais e decisões envolvendo a FIFA. No dia seguinte, a sequência se repetia. O futebol continuava sendo o motivo da reunião, mas já não parecia ser o centro da conversa.

No início pensei que fosse apenas o excesso de cobertura típico de um evento desse tamanho. Depois comecei a perceber que havia algo diferente. A cada nova notícia, ficava mais evidente que a Copa havia deixado de ser apenas um campeonato esportivo para se transformar em um retrato bastante fiel do momento em que o mundo vive.

Talvez essa tenha sido a maior surpresa daquele Mundial. O futebol permaneceu praticamente o mesmo. O ambiente ao seu redor é que já não era.

Os acontecimentos pareciam independentes. As relações de poder revelavam que talvez nunca tenham sido
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Quando o contexto passa a decidir o jogo

Enquanto observava tudo aquilo, comecei a fazer uma associação que ia muito além do esporte.

Durante muito tempo acreditamos que grandes organizações seriam julgadas principalmente pela qualidade daquilo que fazem. Empresas pelos produtos que desenvolvem. Universidades pela formação que oferecem. Instituições esportivas pela capacidade de organizar competições.

Essa lógica continua existindo, mas parece insuficiente para explicar o presente.

Quanto maior a relevância de uma organização, maior também passa a ser o número de interesses que está ao seu redor. Governos, mercados, investidores, opinião pública, questões regulatórias e disputas geopolíticas passam a exercer uma influência que, muitas vezes, é tão determinante quanto a própria atividade da instituição.

Foi exatamente isso que enxerguei durante a Copa. Os jogos continuavam acontecendo. Os atletas continuavam sendo protagonistas dentro das quatro linhas. Mas a narrativa daquele Mundial era construída também por decisões tomadas muito longe dos estádios, e talvez seja justamente esse o ponto mais interessante.

Costumamos imaginar que poder e influência aparecem apenas nos bastidores. A Copa mostrou o contrário. Eles continuam nos bastidores, mas seus efeitos se tornam cada vez mais visíveis para quem observa com atenção.

Essa percepção não vale apenas para uma competição esportiva. Ela ajuda a explicar por que empresas de tecnologia passaram a participar de discussões diplomáticas, por que a produção de semicondutores se transformou em questão estratégica para diferentes países e porque decisões econômicas, políticas e reputacionais passaram a caminhar praticamente juntas.

Não significa que competência tenha perdido importância. Significa apenas que ela já não explica tudo.

Quando desliguei a televisão depois da final, percebi que a principal lembrança que levaria daquela Copa não seria um gol ou um resultado. Seria a constatação de que continuamos vivendo em um mundo onde as relações de poder permanecem moldando os grandes acontecimentos, mesmo quando o palco parece ser outro.

Talvez essa seja a reflexão mais interessante que a Copa de 2026 tenha deixado. O futebol reuniu milhões de pessoas diante da mesma tela, mas foi tudo o que acontecia ao redor dele que revelou como o mundo realmente funciona.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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